Motorista que foge do local do acidente comete crime

Há muito se discute se a criminalização da fuga do motorista do local do acidente está de acordo com a Constituição ou se viola o direito do cidadão de não produzir prova contra si mesmo. Recentemente o Supremo Tribunal Federal decidiu pela constitucionalidade do artigo 305 do Código de Trânsito Brasileiro. Entenda.

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11 meses atrás
Motorista que foge do local do acidente comete crime
Marcello Casal jr/Agência Brasil

Criminalização não fere princípios constitucionais

O artigo 305 do Código de Trânsito Brasileiro prevê a pena de detenção de seis meses a um ano ou multa para pessoa que foge do local do acidente de trânsito sem prestar socorro à vítima. Durante muito tempo se debateu que essa criminalização feria os direitos fundamentais do cidadão, o qual não é obrigado a prestar provas contra si mesmo.

Segundo o entendimento do STF, entretanto, tal criminalização não fere princípios constitucionais. A decisão teve 7 votos contra 4 em caso julgado recentemente. De acordo com o entendimento comum deve haver criminalização se a fuga tiver como intenção esquivar-se da responsabilidade penal ou civil – evitar processo por atropelamento ou morte ou arcar com despesas de reparo e outras indenizações.

Para o Supremo, permanecer no local do acidente não implica em confissão de culpa. Pelo contrário, sugere boa fé do cidadão e por si só já conta como presunção de inocência e não de culpa. Mas mesmo no caso do motorista ser culpado, sua permanência e assistência à vítima servirá como atenuante em caso de condenação.

A fuga só será legitimada quando houver risco de lesão corporal (por exemplo linchamento) caso em que a fuga terá uma excludente de ilicitude, como acontece com a legítima defesa. Por exemplo, num acidente que envolva um motociclista e outros motoqueiros cerquem o motorista com intenção de agredi-lo.

Posicionamento dos Ministros

Para Luiz Fux, a permanência e identificação do motorista não implica em responsabilização e tem completo apoio constitucional.

O ministro Alexandre Moraes afirmou que o direito ao silêncio não significa direito de se recusar a participar do devido processo legal.

Luiz Edson Fachin em sua fala ressaltou que a permanência no local do acidente é uma ajuda inestimável com a autoridade, combatendo diretamente a morosidade do sistema judiciário.

Luís Roberto Barroso explicou que a permanência no local do acidente está imunizada de qualquer intervenção penal sem a transcorrência do devido processo penal, pelo que não há o que temer por parte do motorista.

Rosa Weber utilizou o princípio da proporcionalidade para dizer que o direito à integridade da vitima, a incolumidade pública e a saúde dos usuários nas vias públicas são mais importantes e sustentam a constitucionalidade da criminalização da fuga do local do acidente.

Cármen Lúcia fez suas ponderações mostrando a necessidade de uma mudança de cultura na questão do trânsito brasileiro, que anualmente tem mais de 47 mil mortes, número superior a muitas guerras.

Em contrapartida, Ricardo Lewandowski sustentou que a fuga do local não significa autoincriminação e pode até ser considerada como autodefesa, pelo que entende que a criminalização é inconstitucional.

No mesmo sentido Gilmar Mendes afirmou que o Supremo em outras ocasiões determinou que o direito de permanecer calado deve ser interpretado de modo amplo, pelo que ausentar-se do local do acidente deve ser entendido como um direito do cidadão.

Também Marco Aurélio Mello entende que legislador que previu a criminalização da fuga do local do acidente excedeu no exercício de seu poder.

Celso de Mello, na mesma linha, argumentou que o STF tem reafirmado constantemente os direitos e garantias que assistem o cidadão que se encontra sob investigação estatal ou sob persecução penal, e que tal criminalização viola esses direitos.

Dias Toffoli, presidente do Supremo, apenas acompanhou a divergência sem nada argumentar.

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