A história da indústria automotiva reserva alguns capítulos dedicados a modelos que não foram concebidos para serem convencionais. O caso da Skoda Felicia Fun é emblemático: lançada nos anos 1990, a picape se destacava não pela racionalidade, mas pelo excesso de irreverência. O amarelo intenso da carroceria e a disposição dos bancos traseiros, expostos ao tempo e às intempéries, criavam uma imagem que se distanciava de qualquer padrão de praticidade.
Três décadas depois, a Skoda decidiu revisitar esse símbolo do seu portfólio através de uma releitura digital. A missão ficou nas mãos do designer Julien Petitseigneur, que se propôs a reinterpretar o veículo a partir da linguagem Modern Solid, o padrão estético atual da marca. O resultado é um exercício de estilo que procura atualizar um ícone de nicho sem perder sua essência lúdica.
A proposta não prevê chegada às linhas de produção. Segundo o próprio criador, trata-se de um projeto paralelo desenvolvido em momentos livres, quase como um tributo pessoal. Petitseigneur admite que a imersão na pesquisa o levou até a cogitar adquirir um exemplar original, tamanho o fascínio despertado pela proposta da picape.
Ao contrário do modelo que circulou nas ruas do Reino Unido, o conceito apresentado não traz as soluções excêntricas que marcaram a versão de série, como o banco traseiro exposto ou a divisória deslizante. A reinterpretação opta por ser mais realista dentro das proporções do design atual, embora mantenha a ideia de leveza e descontração que tornaram o veículo tão peculiar.
No contexto da trajetória da Skoda, marcada por veículos utilitários e de apelo racional, a Felicia Fun representou uma ruptura. Foi um raro exemplo de um produto concebido com o objetivo principal de divertir, e não de atender exclusivamente a critérios de eficiência. Por isso, ainda hoje, o modelo ocupa espaço na memória afetiva de entusiastas da marca e da cultura automotiva.
O resgate visual conduzido pela equipe de design reforça também a importância de preservar a diversidade dentro de um portfólio. Ao mesmo tempo em que a Skoda investe em SUVs elétricos, como o Elroq e o Enyaq, abre espaço para lembrar que sua trajetória não foi composta apenas de carros práticos. Há, no histórico, experimentos que funcionaram como válvula de escape criativa e ajudaram a compor uma identidade de marca mais ampla.
Ainda que permaneça restrito ao ambiente digital, o conceito reacende o debate sobre como a indústria pode revisitar ícones passados para inspirar futuros. Não se trata de trazer de volta soluções ultrapassadas, mas de recuperar o espírito de inovação e ousadia que marcaram certos momentos. Nesse sentido, a Felicia Fun reimaginada cumpre seu papel: relembrar que a diversão também tem lugar no design automotivo.
Fonte: Topgear.