A Tesla enfrenta uma das fases mais turbulentas de sua história recente. Após a divulgação de um dos piores balanços trimestrais da última década, a montadora viu sua receita despencar, suas ações desvalorizarem drasticamente e a fortuna de Elon Musk encolher em bilhões. Tudo isso em meio a um cenário político cada vez mais hostil nos Estados Unidos, marcado pela ruptura com Donald Trump e o fim de incentivos aos veículos elétricos.
A receita da empresa caiu 12% no segundo trimestre de 2025, somando US$ 22,5 bilhões, enquanto o lucro teve retração de 16%, frustrando até mesmo as projeções já reduzidas de Wall Street. O desempenho decepcionante foi impulsionado por queda nas entregas, recuo no preço médio dos carros e forte impacto das novas tarifas impostas pelo governo americano. A resposta do mercado foi imediata: as ações da Tesla chegaram a cair 9,5% e a fortuna de Musk despencou US$ 16,7 bilhões em apenas 24 horas.
O momento negativo é agravado pelas tensões políticas envolvendo Elon Musk e o ex-aliado Donald Trump. A eliminação dos subsídios para EVs, aliada ao fim das penalidades para empresas que descumprem metas ambientais, retirou pilares fundamentais do modelo de negócios da Tesla. Em resposta, Musk tem adotado um discurso mais combativo, inclusive anunciando a criação de um novo partido político, o “Partido América”, o que elevou ainda mais o clima de incerteza para o futuro da empresa e de seu CEO.
O balanço financeiro divulgado pela Tesla revelou um cenário preocupante. A montadora apresentou lucro ajustado de US$ 0,40 por ação no trimestre, abaixo das estimativas. A receita caiu para US$ 22,5 bilhões, registrando o maior tombo desde 2012. O resultado negativo teve efeito imediato nas bolsas, derrubando os papéis da empresa em mais de 9% no pós-mercado.
A pressão foi agravada por uma queda de 26% na receita com créditos regulatórios de emissão — um segmento que durante anos ajudou a equilibrar as finanças da empresa. Além disso, o CFO da Tesla, Vaibhav Taneja, confirmou que os custos com tarifas já somam US$ 300 milhões e devem crescer nos próximos trimestres.
O analista William Stein, da Truist Securities, criticou a falta de clareza sobre o futuro da Tesla. Ele destacou que a empresa ofereceu “pouquíssimos detalhes” sobre seu modelo mais acessível e o robô humanoide, produtos que seriam estratégicos para uma possível recuperação. Nas palavras do analista, as perspectivas atuais dependem mais da “imaginação do que de metas realistas”.
Ainda assim, Musk tentou acalmar o mercado durante a teleconferência com investidores, afirmando que a Tesla está em um processo de transição para um futuro com veículos autônomos. “Provavelmente teremos alguns trimestres difíceis, mas a partir da segunda metade de 2026, a situação será muito mais atrativa do ponto de vista econômico”, declarou.
O cenário se agravou após a entrada em vigor da nova legislação tributária sancionada por Donald Trump. A medida elimina gradualmente o crédito fiscal de US$ 7.500 para compra de veículos elétricos, extingue as exigências federais de eficiência energética e retira penalidades para empresas que descumprem essas metas — mudanças que atingem diretamente a Tesla.
A empresa também registrou retração nas vendas do segmento de geração e armazenamento de energia, enquanto suas entregas de veículos seguem em queda. A combinação de perdas fiscais, aumento das tarifas e retração nas vendas criou um ambiente de forte pressão, tanto interna quanto externa.
A relação entre Elon Musk e Donald Trump, que antes era de proximidade política, degringolou de forma pública e ruidosa. Após deixar seu cargo no governo, Musk atacou o presidente americano, acusando-o de contribuir para o “desperdício, corrupção e falência” dos EUA. Em resposta, Trump classificou o bilionário como um “desastre fora dos trilhos” e ameaçou cortar subsídios.
Elon Musk anunciou a criação do “Partido América”, movimento político que promete “devolver a liberdade ao povo americano”. A iniciativa surgiu como resposta direta às medidas de Trump e tenta capitalizar o descontentamento de parte do eleitorado com o sistema político vigente.
Com a criação do partido e o discurso cada vez mais politizado, o bilionário entra em rota de colisão direta com o governo dos EUA. A aposta de Musk é ousada: tornar-se não apenas uma liderança tecnológica, mas também uma força política nacional. No entanto, essa movimentação pode afastar investidores, clientes e reguladores, ampliando os riscos para a Tesla.
Em meio à crise, Elon Musk segue apostando em novos projetos para manter o valor da Tesla em alta. A principal aposta agora está nos robotáxis e na direção autônoma. Segundo o CEO, o serviço de transporte autônomo já começou em Austin e pode atingir metade da população americana até o fim de 2025, dependendo da aprovação dos reguladores.
A Tesla também trabalha em um modelo elétrico mais acessível, cuja produção começou em junho, mas o lançamento está previsto apenas para o fim do terceiro trimestre, após o término dos subsídios federais. Musk afirma que o modelo será similar ao Model Y e será essencial para impulsionar as vendas.
Apesar da ênfase nas tecnologias emergentes, analistas alertam que o foco desviado do negócio principal — os veículos elétricos — pode custar caro. A Tesla enfrenta uma concorrência crescente de montadoras chinesas e americanas que oferecem EVs com preços mais agressivos e incentivos locais ainda válidos.
Enquanto isso, a Tesla também avalia investir diretamente na xAI, a startup de inteligência artificial de Musk. Durante a última teleconferência, o executivo ainda mencionou planos para abrir um restaurante em Los Angeles — gesto simbólico que ilustra o quanto o foco da Tesla parece diluído em meio a tantas frentes simultâneas.
A Tesla vive uma confluência de desafios: pressão financeira, instabilidade política e uma mudança estratégica arriscada em direção à autonomia e à inteligência artificial. O afastamento do governo, a perda de subsídios e o crescimento da oposição política colocam em xeque o modelo de negócios que sustentou a ascensão meteórica da empresa nos últimos anos.
Apesar disso, a Tesla ainda é uma referência no setor de inovação tecnológica e mantém uma base sólida de investidores. A marca ainda goza de prestígio global e de um CEO com histórico comprovado de reinvenção, embora sua imagem esteja cada vez mais polarizada.
Nos próximos meses, a empresa terá que equilibrar três frentes: conter a queda nas vendas, reposicionar seus produtos em um novo ambiente regulatório e convencer o mercado de que a promessa da autonomia total é mais do que apenas marketing.
O futuro da Tesla dependerá da capacidade de Elon Musk de lidar com os desafios políticos, manter a confiança do mercado e entregar resultados consistentes — algo que, até agora, parece cada vez mais incerto.
Fonte: Folha, Metropoles e Oglobo.