A crise entre Elon Musk e Donald Trump ganhou contornos públicos e severos nesta quinta-feira, 5 de junho, com impactos diretos no valor de mercado da Tesla. A troca de acusações entre o empresário e o presidente dos Estados Unidos levou à queda de quase 18% das ações da montadora. O episódio também colocou em risco bilhões de dólares em lucros futuros da empresa.
Pontos Principais:
A tensão foi iniciada após críticas de Musk à proposta de reforma tributária da atual administração, que prevê o fim antecipado de subsídios destinados à produção e compra de veículos elétricos. Em resposta, Trump demonstrou desapontamento e ameaçou encerrar contratos e incentivos concedidos às empresas do bilionário, incluindo Tesla e SpaceX. A instabilidade política gerou desconfiança entre investidores, resultando na forte desvalorização dos papéis da empresa.
Além do impacto no mercado de ações, a fortuna pessoal de Elon Musk encolheu em mais de US$ 28 bilhões em apenas um dia, segundo rankings internacionais. A perda equivale ao valor de mercado de grandes bancos brasileiros. Ainda assim, Musk permanece entre os indivíduos mais ricos do mundo, com patrimônio estimado em US$ 388,8 bilhões.
A proposta de reforma tributária em tramitação no Congresso americano prevê a eliminação do crédito fiscal de até US$ 7.500 para veículos elétricos até o fim de 2025. A mudança representa um corte antecipado dos incentivos originalmente estabelecidos para durar mais sete anos. Analistas estimam que a Tesla pode perder US$ 1,2 bilhão por ano apenas com essa medida.
Outro projeto, já aprovado pelo Senado, impõe restrições à compra de componentes chineses e reduz os incentivos à energia limpa. A Tesla, que possui refinarias de lítio e fábricas de baterias nos Estados Unidos, pode ser afetada também em sua divisão de energia, com a perda potencial de mais US$ 2 bilhões em créditos regulatórios.
Combinadas, essas alterações fiscais colocam em risco cerca de metade do lucro operacional que o mercado esperava da Tesla para o ano de 2025. As medidas fazem parte de um reposicionamento político do atual governo, que tenta reverter políticas ambientais criadas durante o mandato anterior.
A crise não se limitou ao cenário interno. A imagem de Elon Musk também foi afetada no exterior após sua participação na cerimônia de posse de Trump, em janeiro. Um gesto feito durante o evento gerou reações negativas na Europa, onde consumidores e autoridades acusaram o empresário de alinhar-se à extrema-direita.
O resultado foi uma campanha de boicote à Tesla em países como Alemanha e França. As vendas na Europa caíram 45%, agravando ainda mais o momento financeiro da empresa. A pressão sobre a imagem institucional da marca cresceu, com impactos diretos nas decisões de compra por parte dos consumidores.
Além das críticas políticas, a concorrência com fabricantes chineses se intensificou no continente europeu, dificultando a recuperação da Tesla nos mercados internacionais. As dificuldades comerciais ocorrem em um período de transição global para tecnologias limpas, no qual a montadora vinha desempenhando papel central.
O ponto mais crítico do embate foi alcançado após Trump declarar que os subsídios federais concedidos a Musk deveriam ser cortados para equilibrar o orçamento. Em resposta, Musk publicou mensagens diretas em redes sociais, acusando o presidente de “ingratidão” e negando ter conhecimento prévio sobre os cortes previstos na proposta fiscal.
Em uma das publicações, Musk insinuou ligações do presidente com escândalos envolvendo Jeffrey Epstein, ex-financista acusado de liderar uma rede internacional de exploração sexual. A declaração intensificou ainda mais a ruptura entre os dois, que durante anos mantiveram uma relação política estratégica.
Desde que deixou o posto de conselheiro da Casa Branca, Musk tem atuado contra a aprovação dos projetos que afetam diretamente a Tesla. O empresário busca apoio entre congressistas republicanos para barrar as mudanças, mas enfrenta resistência crescente por parte da nova ala majoritária do partido.
A crise entre Musk e Trump também teve reflexos no mercado financeiro norte-americano de forma mais ampla. As bolsas de Nova York encerraram o pregão em queda, com o índice Nasdaq recuando 0,83%. A expectativa pela divulgação do payroll de maio, indicador que mede a geração de empregos, ampliou o clima de cautela.
A valorização do dólar perdeu força após Trump anunciar conversas produtivas com o governo chinês, o que trouxe certo alívio às tensões comerciais internacionais. Ainda assim, os dados econômicos internos permanecem mistos e a projeção de novos cortes de juros pelo Federal Reserve depende dos resultados do mercado de trabalho.
Especialistas alertam que a instabilidade fiscal, combinada com as incertezas eleitorais, pode gerar volatilidade para empresas com alto grau de dependência de subsídios, como a Tesla. A leitura do mercado é que o embate entre duas figuras públicas tão influentes traz repercussões além do campo político, afetando cadeias produtivas inteiras.
A divisão de energia da Tesla também demonstrou preocupação com os rumos da nova política fiscal. Em comunicado interno, a empresa avaliou que os projetos em análise no Congresso “desmontam” os incentivos à energia limpa, afetando diretamente os planos de transição energética do país.
As regras previstas na proposta limitam a revenda de créditos fiscais e restringem o uso de materiais de origem chinesa em instalações de energia renovável. Segundo especialistas, essas mudanças podem comprometer a viabilidade econômica de usinas solares e baterias domésticas, áreas nas quais a Tesla tem forte atuação.
Com o fim antecipado dos subsídios, empresas do setor estimam aumento no custo dos projetos e retração nos investimentos privados. A Tesla, que havia planejado expansão de sua divisão de energia nos próximos anos, pode rever suas metas diante do novo cenário regulatório.
Apesar da queda abrupta nas ações, a Tesla não se pronunciou oficialmente sobre os acontecimentos. A expectativa é que os próximos dias sejam decisivos para definir os rumos da relação entre Elon Musk e o governo americano. A manutenção ou revogação dos incentivos fiscais pode alterar o equilíbrio de forças no mercado de veículos elétricos.
A disputa entre Musk e Trump também levanta questionamentos sobre o papel do Estado na promoção da indústria limpa. Analistas apontam que a ausência de uma política previsível pode inibir investimentos e afetar a competitividade das empresas americanas frente a rivais asiáticos.
No curto prazo, a atenção dos investidores estará voltada às votações no Congresso e à reação das empresas do setor. A Tesla, diante de desafios simultâneos em imagem, política e finanças, atravessa um dos momentos mais delicados de sua trajetória recente.
Fonte: Bloomberg, Timesofindia, Theguardian, InfoMoney e UOL.