A lei que previa o fim da venda de veículos a combustão na União Europeia até 2035 enfrenta sua maior ameaça desde a aprovação. A Comissão Europeia decidiu alterar as metas de emissões que entrariam em vigor já em 2025, atendendo a pedidos das montadoras e abrindo uma brecha que pode mudar completamente o futuro da política climática mais ambiciosa do continente.
A decisão anunciada em Bruxelas representa uma vitória expressiva para a indústria automotiva, que vinha alertando sobre a dificuldade de manter os planos em meio à crise econômica e à retração do setor. A flexibilização agora permite que as metas sejam calculadas em médias de três anos, e não mais anualmente, o que dá maior fôlego às empresas em um momento de queda nas vendas de veículos eletrificados.
A medida também revelou divisões entre os Estados-membros da União Europeia. Alemanha e Itália pressionam por exceções que contemplem combustíveis sintéticos e biocombustíveis, enquanto a Polônia defende regras menos rígidas. A França, embora apoie a proibição dos motores a combustão em 2035, aceitou a mudança temporária. O vice-presidente da Comissão Europeia, Stéphane Séjourné, destacou que seria paradoxal multar os fabricantes ao mesmo tempo em que se busca apoiá-los financeiramente.
As reações políticas foram imediatas. O Partido Popular Europeu, maior grupo do Parlamento, prometeu rever a lei, enquanto eurodeputados como Filip Turek já classificam a revisão como o início do fim da proibição. Ambientalistas, por sua vez, alertam que o Acordo Verde europeu corre risco de se enfraquecer diante de concessões sucessivas. Julia Poliscanova, da ONG Transport & Environment, disse que a legislação pode perder força de forma gradual, a menos que seja rigidamente defendida.
No setor automotivo, a revisão dividiu opiniões. Enquanto fabricantes como Renault e grupos alemães comemoram a neutralidade tecnológica, que permite considerar híbridos e combustíveis alternativos como parte da estratégia de descarbonização, marcas como a Volvo criticam a mudança. A empresa argumenta que aqueles que se anteciparam às regras não deveriam ser penalizados por uma flexibilização de última hora.
Um ponto que chamou atenção foi a lembrança da estratégia da Toyota, que manteve foco nos híbridos e vem sendo apontada por internautas como precursora diante da atual conjuntura. A discussão reforça o embate entre diferentes visões sobre qual caminho tecnológico pode de fato reduzir as emissões sem comprometer a competitividade da indústria.
Ambientalistas e eurodeputados verdes veem a decisão como a abertura de uma cláusula de desistência. Michael Bloss, parlamentar europeu, afirmou que a Comissão estaria abrindo a “caixa de Pandora” e que a mudança coloca em xeque não apenas a meta de 2035, mas também a capacidade da União Europeia de cumprir compromissos climáticos até 2050.
Fonte: Drive, Gazetasp, Mobilidade e AutoPapo.