Um erro doméstico acendeu o alarme que o setor automotivo brasileiro fingia não ouvir. No domingo (19), em Santa Maria (RS), um BYD Dolphin 100% elétrico pegou fogo depois que o dono decidiu improvisar o carregamento do carro com uma extensão comum e um carregador portátil deixado dentro do veículo. O resultado: o primeiro incêndio de um elétrico no Brasil.
A imagem do hatch chamuscado circulou rápido nas redes. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, a bateria não explodiu — o fogo começou no interior do carro, onde o carregador portátil foi deixado ligado, sobre o estofado, dentro de um espaço quente. Um arranjo perigoso, mas comum entre quem tenta driblar a falta de pontos de recarga no país.
O caso não é sobre um defeito de fábrica, mas sobre a cultura da improvisação. O carro resistiu; a estrutura, não. No Brasil, a recarga elétrica ainda depende da boa vontade e da capacidade técnica de cada proprietário. E isso é parte do problema. Instalar um carregador seguro exige circuito dedicado, aterramento e equipamentos homologados — três itens ausentes em boa parte das garagens residenciais.
Especialistas apontam que o crescimento acelerado dos elétricos, com alta de 20% nas vendas neste ano, contrasta com a lentidão da infraestrutura. Enquanto as montadoras anunciam novos modelos, a regulação sobre instalação, potência e segurança elétrica caminha devagar, empurrada por burocracias e pela ausência de fiscalização.
O resultado é previsível: consumidores apostando na tomada errada, literalmente. A falta de orientação técnica e o improviso doméstico transformam o que deveria ser um avanço em risco real. No caso de Santa Maria, o fogo foi contido a tempo. Mas a lição é clara: o carro elétrico depende tanto da rede quanto da consciência do usuário.
O episódio também revela um dilema de comunicação. A indústria vende eficiência e silêncio, mas fala pouco sobre os cuidados de uso. Sem regras, manuais claros e suporte técnico acessível, cada garagem vira um experimento elétrico em potencial.
O incêndio em Santa Maria assume papel de sinalizador: mais do que um fato isolado, representa o espelho das fragilidades da cadeia de recarga elétrica residencial no Brasil — da infraestrutura à educação do consumidor — que ainda precisa ser aperfeiçoada para sustentar o crescimento do setor.