Chevrolet marcou a virada técnica da correia banhada a óleo, com novo projeto e fornecedor após falhas recorrentes. A mudança afeta diretamente os novos modelos de Onix, Onix Plus e Tracker, separando motores antigos, dependentes de garantia estendida, dos novos, que recebem correia reforçada e promessa de maior durabilidade.
Durante muito tempo, bastava citar “correia dentada banhada a óleo” para a conversa mudar de tom entre donos de Chevrolet. O que nasceu como uma solução moderna virou um problema técnico concreto, com relatos recorrentes de desgaste prematuro, falhas de lubrificação e motores danificados. A resposta da Chevrolet só veio depois de a crise já estar consolidada, e passou a ganhar forma real a partir da linha 2026, quando a engenharia da marca decidiu rever o projeto do componente.
Nos motores três-cilindros turbo que equipam Chevrolet Onix, Onix Plus e Chevrolet Tracker, a correia dentada trabalha imersa no óleo do motor. A proposta técnica sempre foi reduzir atrito, ruído e peso em comparação a uma corrente metálica. Em mercados com manutenção rigorosa, o sistema funciona. No Brasil, o cenário expôs fragilidades que a GM não havia previsto plenamente.
Com o uso prolongado, surgiram casos de degradação acelerada da correia. O material se desfazia, liberando partículas que circulavam pelo sistema de lubrificação. Em situações mais críticas, o pescador de óleo era parcialmente ou totalmente obstruído, reduzindo a pressão de óleo e abrindo caminho para danos severos no motor. O custo elevado dos reparos ampliou a repercussão negativa e transformou o tema em um dos mais sensíveis da história recente da marca no Brasil.
A Chevrolet optou por não classificar o problema como recall. O discurso oficial sempre apontou o uso de óleo fora da especificação e falhas de manutenção como fatores determinantes. Ainda assim, diante da pressão do mercado, a marca avançou no pós-venda. Foram ampliadas inspeções, adotada análise técnica individual e criada uma política de garantia mais abrangente para tentar conter o desgaste de imagem.
Para veículos já vendidos, incluindo modelos 2025 e anteriores, a Chevrolet passou a oferecer cobertura estendida que, em casos específicos, chega a 240.000 km. Essa medida foi decisiva para reduzir conflitos com proprietários, mas não alterou o projeto original. Esses carros seguiram equipados com a correia antiga, e a substituição só ocorre mediante avaliação técnica e histórico de manutenção compatível com as exigências da fábrica.
A mudança estrutural aconteceu na linha 2026. A Chevrolet reformulou a correia banhada a óleo e trocou o fornecedor, substituindo a Continental pela Dayco. O novo componente recebeu reforços de fibra de vidro e revestimento em teflon, aumentando a resistência química ao contato com lubrificantes fora da especificação. Segundo a engenharia da GM, o risco de degradação acelerada e entupimento dos dutos de óleo foi drasticamente reduzido.
A promessa da nova correia é maior tolerância a cenários reais do Brasil, onde óleos adulterados ou fora do padrão ainda circulam no mercado. O reforço químico também reduz o ressecamento precoce da borracha, um dos gatilhos dos problemas anteriores. Mesmo assim, o sistema continua exigente. O uso de óleo homologado Dexos e trocas a cada 10.000 km seguem sendo determinantes para a durabilidade do conjunto.
Apesar da evolução, a correia banhada a óleo permanece sensível a desvios de manutenção. A mudança de composição, possivelmente com maior teor de acrilonitrila, torna o material mais rígido. Em motores mais antigos, isso pode resultar em funcionamento menos suave e aumento de ruído caso a nova correia seja instalada fora do projeto original. A correção existe, mas não elimina completamente o risco estrutural do conceito.
Esse ponto gera confusão no consumidor. Dois carros iguais por fora podem ter soluções mecânicas distintas por dentro. Não houve atualização silenciosa nos modelos 2025. A correia revisada é exclusiva dos veículos produzidos já como linha 2026. Quem comprou antes depende da política de garantia. Quem compra agora leva um motor tecnicamente corrigido, fruto de anos de aprendizado forçado da marca.
Enquanto a Chevrolet insiste na evolução da correia banhada a óleo, outras montadoras seguiram caminho oposto. A Stellantis, por exemplo, abandonou esse sistema em alguns mercados e voltou à corrente metálica. A decisão da GM é ousada: manter um conceito mais leve e eficiente, mas historicamente sensível. Para o consumidor brasileiro, o ganho está na garantia estendida e na revisão técnica. Para quem busca menor risco estrutural, motores com corrente seguem sendo vistos como alternativa mais conservadora.
A cronologia é clara. Primeiro vieram as falhas e a desconfiança. Depois, a contenção via garantia. Por fim, a correção técnica aplicada apenas nos carros novos. A correia banhada a óleo deixou de ser apenas um componente e se tornou um marco dentro da própria Chevrolet no Brasil, separando definitivamente os motores produzidos antes e depois da linha 2026.
Fonte: AutoPapo, QuatroRodas, OMecanico e ReclameAqui (1 e 2)