Algumas marcas já conseguiram algo raro no mercado brasileiro, convencer compradores mais jovens a entrar na concessionária e fechar negócio em um carro zero km. Outras seguem dependentes de um público mais velho, fiel, mas cada vez menor, e um estudo recente escancara essa diferença.
Pela primeira vez, um levantamento colocou números concretos em algo que o setor sempre discutiu mais no feeling do que nos dados. Quem está comprando carro novo no Brasil está perto dos 50 anos, mais precisamente 49,9 anos de idade média. Mas essa média esconde movimentos importantes que ajudam a explicar por que algumas marcas crescem em imagem, enquanto outras lutam para se renovar.
Os dados mostram que Peugeot, BYD e CAOA Chery estão conseguindo dialogar melhor com consumidores mais jovens, inclusive em relatórios da Fenabrave. A Peugeot aparece com a menor média de idade entre seus compradores, 46,2 anos. Logo atrás vêm a BYD, com 46,8 anos, e a CAOA Chery, com 47,7 anos. Não é uma diferença pequena quando se olha o mercado como um todo. Entre a marca com público mais jovem e a mais madura, o intervalo chega a oito anos.
No outro extremo estão Renault, Mitsubishi e Nissan. A Renault lidera como a marca com compradores mais velhos, média de 54,4 anos, seguida pela Mitsubishi, com 53,2, e pela Nissan, com 52,1 anos. É um retrato claro de como produto, preço, comunicação e até a experiência dentro da concessionária acabam atraindo perfis muito diferentes.
Esse levantamento faz parte do PVZ, o Estudo de Preços de Veículos Zero Km, conduzido pela MegaDealer em parceria com a Auto Avaliar. Os números são de novembro e se baseiam em mais de 69 mil vendas reais, feitas em concessionárias, o que dá peso e credibilidade ao resultado. Não são intenções ou pesquisas de opinião, são negócios fechados.
Considerando o acumulado de 2025 até novembro, o estudo já analisou cerca de 650 mil operações de venda em todo o país, reunindo dados de preços praticados, descontos, giro de estoque e, agora, também o perfil etário dos compradores.
Quando se observa as marcas que atraem consumidores mais jovens, alguns padrões começam a aparecer. A Peugeot aposta forte em design mais ousado, com linhas agressivas e interiores que tentam fugir do óbvio. É uma estratégia que conversa melhor com quem busca identidade, não apenas transporte.
Já a BYD chega com o discurso da eletrificação, tecnologia embarcada e uma imagem de novidade. Mesmo em um mercado ainda em transição, o apelo da inovação pesa para consumidores que querem algo diferente do padrão tradicional.
A CAOA Chery segue outro caminho, mas igualmente eficaz. A marca construiu espaço oferecendo mais equipamentos por um preço competitivo, algo que pesa para quem compara ficha técnica, valor de entrada e custo-benefício antes de fechar negócio.
Do lado das montadoras com público mais maduro, o cenário é outro. Renault, Mitsubishi e Nissan carregam uma imagem associada à confiabilidade, robustez e menor risco percebido. Esses atributos continuam sendo decisivos para muitos compradores, mas conversam menos com quem busca novidade, tecnologia ou impacto visual.
Esse posicionamento não é necessariamente um problema no curto prazo, mas levanta dúvidas sobre como essas marcas pretendem se renovar diante de um público que envelhece junto com o mercado.
O estudo também ajuda a entender o momento do setor. Novembro mostrou um mercado aquecido, com o tíquete médio dos carros zero km subindo de R$ 169.580 para R$ 172.785 em relação a outubro. O aumento de cerca de R$ 3.200 não veio de reajustes generalizados, mas de uma mudança clara no mix de vendas.
Segundo a MegaDealer, poucas montadoras mexeram nos preços no período. O consumidor passou a optar por veículos de maior valor e versões mais completas, elevando o tíquete médio das operações.
Esse movimento aparece de forma direta no giro de estoque. O tempo médio de permanência dos veículos nas lojas caiu de 38 para 36 dias. Na prática, isso indica que os carros estão sendo vendidos mais rapidamente, um sinal claro de demanda aquecida mesmo com preços mais elevados.
Apesar do aumento no tíquete médio, os descontos não desapareceram. Pelo contrário, houve uma leve alta, com a média nacional passando de 7% para 7,1% sobre o preço sugerido pelas fabricantes.
Sedãs médios, SUVs e hatches de entrada continuam com reduções menores, sustentados por procura firme. Já as picapes seguem oferecendo os descontos mais elevados, uma estratégia comum em um segmento de alto valor unitário e maior margem de negociação.
O recorte geográfico também traz pistas importantes. A região Norte e o estado de São Paulo lideram nos descontos médios, ambos com 7,7%. Já Nordeste, Centro-Oeste e Sul ficam abaixo da média nacional, refletindo realidades distintas de concorrência, poder de compra e estratégia comercial.
Com a média nacional de idade dos compradores próxima dos 50 anos, o estudo levanta uma questão que começa a ganhar peso dentro das montadoras, como atrair a próxima geração de consumidores sem perder a base atual.
As marcas que já conseguiram conversar com compradores mais jovens parecem ter encontrado caminhos claros. As demais terão de decidir se permanecem confortáveis com um público fiel, porém mais maduro, ou se vão apostar em mudanças mais profundas de produto, comunicação e posicionamento. O levantamento não traz respostas prontas, mas deixa evidente que o futuro do mercado brasileiro de carros zero km passa, cada vez mais, por quem consegue antecipar esse movimento.