Um homem achou que faria o negócio da sua vida. Em 2018, ele desembolsou US$ 10 mil (cerca de R$ 48 mil) para comprar Lambo.com, convicto de que cinco letras poderiam colocá-lo entre os sortudos que ficam milionários apenas por ter registrado algo antes de uma grande marca. Ele imaginava acordar um dia com o e-mail de um bilionário apaixonado por supercarros, disposto a transformar um investimento modesto em fortuna. Tudo o que ele precisava fazer era esperar. Nada de construir um site, criar conteúdo ou desenvolver um projeto. O plano era simplesmente segurar o domínio até que alguém mordesse a isca.
O tempo passou e a ambição cresceu mais rápido do que o giro de um motor esportivo. Primeiro, ele anunciou valores altos, depois valores absurdos. Lambo.com foi de um preço ousado para um patamar que parecia piada privada. Em poucos anos, a pedida chegou a US$ 1,1 milhão, depois US$ 12 milhões, e finalmente ao inacreditável valor de US$ 75 milhões, equivalente a R$ 360 milhões. Tudo isso por uma página que não entregava nada além de um anúncio de venda. Nenhum texto, nenhum serviço, absolutamente nenhuma utilidade. Apenas a expectativa de que um nome famoso sustentaria sozinho um preço digno de superesportivo de edição limitada.
É claro que uma estratégia dessas não passa despercebida por muito tempo. A Lamborghini notou o domínio, analisou o caso e levou a disputa à Organização Mundial da Propriedade Intelectual. O argumento era direto: o endereço era praticamente um atalho para a marca, e usá-lo apenas como vitrine de especulação significava tentar lucrar com a reputação construída por décadas de história automotiva. A WIPO examinou todos os detalhes. Descobriu que o proprietário não só nunca desenvolveu um site funcional, como também só passou a se identificar como “Lambo” depois de comprar o domínio, algo completamente incompatível com um uso pessoal legítimo. A investigação foi desmontando a narrativa dele como um mecânico que abre o motor e encontra tudo improvisado com fita isolante.
A decisão foi dura. A WIPO declarou que havia má-fé no registro e determinou que o domínio fosse transferido gratuitamente para a Lamborghini. Mas o investidor não estava pronto para desistir da fantasia de enriquecer. Ele levou o caso ao tribunal federal dos Estados Unidos, buscando reverter o veredito. Foi aí que a história ganhou um contorno ainda mais improvável. Nos autos, havia registros de que, em determinado momento, Lambo.com chegou a redirecionar para um fórum onde o dono chamava a Lamborghini de “ladrões” e prometia “defender, derrotar e humilhar” a empresa. Não exatamente a melhor estratégia para quem tenta convencer um juiz de que está agindo de boa-fé.
Segundo o Carscoops, a juíza Roslyn O. Silver analisou tudo isso em uma sentença detalhada de 24 páginas. Ela concluiu que o autor não tinha qualquer direito de marca sobre o termo “Lambo”, que não havia uso comercial ou informativo legítimo e que o domínio nunca teve função real que justificasse sua exploração além da tentativa de lucrar sobre um nome mundialmente reconhecido. Também rejeitou a ideia de apelação. O caso estava encerrado.
O resultado final foi quase cinematográfico. A Lamborghini ficou com o domínio sem gastar nada. O ex-proprietário perdeu os US$ 10 mil (R$ 48 mil) investidos, perdeu o endereço que acreditava valer uma fortuna e ainda precisou arcar com os custos do processo. A aventura digital que começou cheia de expectativas terminou como um prejuízo completo causado por uma aposta baseada exclusivamente na fama de uma marca que ele não tinha o direito de explorar.
No fim das contas, ele descobriu do jeito mais caro possível que transformar cinco letras em milhões exige mais do que coragem e oportunismo. Exige algo que o domínio nunca teve: legitimidade.