O trabalho mediado por aplicativos consolidou-se como um dos maiores fenômenos do mercado brasileiro contemporâneo. Em 2024, 1,7 milhão de pessoas tinham plataformas digitais como principal ocupação, um crescimento de 25% em dois anos. Esse avanço reflete a busca por alternativas de renda em meio ao desemprego e à informalidade, mas também expõe o aumento da precarização das relações de trabalho. O estudo do IBGE mostra que, embora a renda média desses trabalhadores seja ligeiramente superior à dos empregados tradicionais, o custo é uma jornada mais extensa, com menor proteção social e alto grau de dependência tecnológica.
Os motoristas e entregadores formam o núcleo desse novo mercado. Eles são o símbolo de um modelo de trabalho que se espalha pelo país e redefine a fronteira entre emprego formal e autônomo. A promessa de liberdade e ganhos rápidos atraiu uma geração de brasileiros que hoje sustenta a economia dos aplicativos. No entanto, os dados indicam que a flexibilidade anunciada pelas plataformas convive com jornadas exaustivas e controle algorítmico das condições de trabalho.
A desigualdade social e regional se mantém como pano de fundo. O Sudeste concentra mais da metade dos trabalhadores por aplicativo, enquanto Norte e Nordeste lideram em informalidade. Essa nova classe de profissionais digitais é majoritariamente masculina, jovem e de escolaridade média — um retrato que combina modernidade tecnológica e antigas fragilidades do mercado de trabalho brasileiro.
Entre 2022 e 2024, o número de trabalhadores que tinham aplicativos como principal fonte de renda saltou de 1,3 milhão para 1,65 milhão. O Sudeste concentra 888 mil pessoas, o que representa 53,7% do total nacional. Em seguida vêm o Nordeste, com 293 mil, e o Sul, com 200 mil. O crescimento foi mais acentuado no Centro-Oeste, onde o número de plataformizados subiu 58,8%, e no Norte, com alta de 56%.
Os aplicativos de transporte particular dominam o setor, com 878 mil trabalhadores, seguidos pelos de entrega de comida e produtos (485 mil) e pelos de serviços gerais e profissionais (294 mil). Os aplicativos de táxi, mais tradicionais, ainda reúnem 228 mil pessoas. No total, 58,3% dos trabalhadores por app estão ligados a atividades de transporte.
A facilidade de entrada é um dos principais motores desse crescimento. Basta um celular, um veículo e disponibilidade para longas horas de trabalho. Mas o modelo vem acompanhado de uma informalidade alarmante: 71,1% dos trabalhadores de plataformas não têm registro, e apenas 35,9% contribuem à Previdência. No Norte, o índice de contribuição cai para 15,4%, enquanto no Sul mais da metade dos trabalhadores paga o INSS.
A expansão é desigual e evidencia as contradições da nova economia. Enquanto o acesso às plataformas amplia as oportunidades de renda, a ausência de regulação mantém milhões de brasileiros sem rede de proteção social e sem garantias mínimas de trabalho digno.
Motoristas e motociclistas são a base dessa força de trabalho. Em 2024, o país registrava 1,88 milhão de condutores de automóveis e 1,05 milhão de motociclistas. Entre eles, 43,8% e 33,5%, respectivamente, atuavam por meio de plataformas digitais. A diferença salarial entre os plataformizados e os não plataformizados é pequena, mas reflete o aumento da carga horária.
Os motoristas de aplicativos tiveram renda média mensal de R$ 2.766, superior à dos demais condutores (R$ 2.425). Entre os motociclistas, a diferença também foi positiva: R$ 2.119 contra R$ 1.653. No entanto, o rendimento por hora trabalhada é menor, o que indica que o ganho extra resulta de mais horas na rua, não de remuneração mais justa.
As plataformas determinam praticamente todos os aspectos do trabalho: valor da corrida, forma de pagamento, rotas e até ritmo de trabalho. O IBGE mostrou que 91,2% dos motoristas de transporte particular e 81,3% dos entregadores têm o valor recebido definido pelo aplicativo.
Apesar do discurso de liberdade, os incentivos e punições aplicados pelas plataformas criam um ambiente de controle indireto, semelhante ao emprego formal, mas sem direitos trabalhistas. O motorista que recusa corridas perde prioridade, o entregador que atrasa pedidos vê sua pontuação cair, e o algoritmo substitui o chefe tradicional.
O rendimento médio mensal dos trabalhadores plataformizados chegou a R$ 2.996 em 2024, ligeiramente acima dos R$ 2.875 dos não plataformizados. Mas o aumento real foi modesto: 1,2% em dois anos, enquanto os trabalhadores tradicionais tiveram crescimento de 6,2%. Quando calculado por hora, o cenário se inverte — os plataformizados ganham R$ 15,40 contra R$ 16,80 dos demais.
A escolaridade define boa parte dessa disparidade. Entre os que têm ensino fundamental incompleto, os trabalhadores por aplicativo ganham 40% a mais do que os demais. Já entre os que possuem nível superior completo, a situação se inverte: o rendimento é 30% menor. Muitos graduados atuam em funções abaixo da sua qualificação, o que demonstra o rebaixamento profissional causado pela falta de oportunidades formais.
As jornadas também são mais longas. Quem trabalha com aplicativos dedica, em média, 44,8 horas semanais — cinco a mais do que a média dos empregados tradicionais. A promessa de flexibilidade se transforma em rotina intensa e exaustiva, em que o tempo livre se torna variável de sobrevivência.
A diferença de renda por escolaridade também revela a segmentação do trabalho digital. Enquanto os menos qualificados enxergam nos aplicativos uma chance de sustento, os mais escolarizados os encaram como refúgio temporário em um mercado estagnado.
O trabalhador plataformizado é majoritariamente homem (83,9%), entre 25 e 39 anos (47,3%), e de escolaridade média — 59,3% têm ensino médio completo ou superior incompleto. As mulheres representam 16,1% do total, em geral vinculadas a serviços gerais e profissionais. Quanto à cor ou raça, 45,1% se declaram brancos, 41,1% pardos e 12,7% pretos.
A composição revela um fenômeno social de grande escala: uma força de trabalho jovem, conectada e desprotegida. A ausência de regulamentação transforma o trabalho por aplicativo em uma zona cinzenta entre o formal e o informal. Os vínculos são frágeis, as contribuições previdenciárias são baixas e o poder das empresas sobre o cotidiano dos trabalhadores é crescente.
O desafio agora é político e institucional. Sem um marco regulatório que garanta direitos básicos e defina responsabilidades, a economia dos aplicativos tende a perpetuar um modelo de alta exploração e baixa estabilidade. O Brasil vive um dilema entre inovação e precariedade: como incorporar milhões de pessoas à economia digital sem repetir os vícios do passado industrial.
O futuro do trabalho por aplicativo depende da capacidade do país de criar novas formas de proteção que acompanhem a velocidade da tecnologia. Enquanto isso, nas ruas, milhões de brasileiros continuam conectados a um sistema que promete liberdade, mas entrega incerteza — um espelho do mercado de trabalho de uma era que ainda aprende a equilibrar progresso e dignidade.
Fonte: G1.