A compra da invenção criada no litoral do Piauí revela um movimento que começa a ganhar força no Brasil, o uso de carros elétricos como fonte de energia doméstica em regiões vulneráveis da rede. O projeto criado por Tibúrcio Frota, que transforma um BYD em gerador capaz de manter uma casa funcionando por cerca de oito horas, atraiu uma empresa chinesa do setor e colocou Parnaíba no radar internacional.
A proposta nasceu de um problema cotidiano. Frota se mudou para uma área litorânea sujeita a quedas constantes de energia e decidiu aproveitar um recurso oferecido por um modelo elétrico da BYD, que permite liberar carga pelo plugue de carregamento. O sistema alimentou toda a residência em testes iniciais e abriu caminho para uma solução mais robusta.
A evolução do projeto veio com o reaproveitamento de baterias de carros acidentados, compradas em leilões. O conjunto opera com um inversor solar off-grid híbrido, capaz de trabalhar isolado da concessionária ou integrado à rede. Como o inversor não se comunicava diretamente com a bateria reaproveitada, Frota criou um módulo próprio para fazer essa ponte, hoje em processo de patente. É esse componente que garante que as informações circulem de forma correta entre os equipamentos.
O desempenho chamou atenção. Em uma residência comum, com ar-condicionado, geladeira e iluminação, o sistema manteve tudo ligado durante cerca de oito horas. Essa autonomia ampliada é justamente o que diferencia a criação em relação ao V2L, recurso já conhecido em alguns elétricos, mas limitado a alimentar aparelhos simples.
A empresa chinesa interessada no projeto avalia que a adaptação piauiense incrementa o uso residencial da energia do carro, algo que fabricantes ainda tratam como função complementar. O setor observa com atenção porque a ideia encaixa no avanço das energias renováveis e na busca por soluções de baixo custo para regiões sujeitas a apagões.
O inventor afirma que não imaginava comercializar a tecnologia, criada inicialmente para resolver um problema doméstico. O interesse internacional reforça a relevância prática do sistema e evidencia o potencial de soluções desenvolvidas fora dos grandes centros.
A partir daqui, a discussão deixa de ser apenas sobre uma adaptação bem feita e passa a tocar em um tema maior, como projetos independentes podem acelerar o uso de veículos elétricos como apoio direto ao consumo residencial em áreas onde a rede falha com frequência.