O Espírito Santo passou a fechar supermercados aos domingos a partir de 1º de março, tornando-se o único estado do país com acordo coletivo que suspende o funcionamento do setor nesse dia. A medida, válida até 31 de outubro de 2026, atinge cerca de 1.500 lojas espalhadas pelos 78 municípios capixabas e envolve aproximadamente 70 mil trabalhadores.
A decisão foi firmada em convenção coletiva entre a federação patronal do comércio e o sindicato da categoria. O argumento central é conhecido por qualquer empresário que já tentou fechar escala em fim de semana: falta de mão de obra e dificuldade para montar equipes completas. Com taxa anual de desemprego em 3,3% em 2025, uma das menores do país, o estado vive cenário de mercado aquecido, o que reduz o número de candidatos disponíveis para vagas no comércio.
Além da escassez de trabalhadores, o faturamento de domingo pesa na conta. Dados da Secretaria da Fazenda mostram que, em 2025, o domingo registrou média de R$ 25,9 milhões em vendas, bem abaixo do sábado, que superou R$ 102 milhões. Sexta-feira também aparece forte, com mais de R$ 87 milhões. Diante da diferença, empresários passaram a questionar se manter portas abertas no dia de menor movimento compensava o esforço logístico.
Segundo representantes do setor, o fechamento será experimental e poderá ser revisto nas negociações previstas para novembro.
A escala segue no modelo 6 x 1, mas a folga semanal agora será fixa aos domingos. Antes, muitos funcionários trabalhavam em sistema alternado, um domingo sim, outro não, com pagamento adicional ou compensação em banco de horas, dependendo da política da empresa.
Para parte dos funcionários, a mudança representa ganho em qualidade de vida. A possibilidade de ter todos os domingos livres reorganiza a rotina familiar, especialmente para quem tem filhos em idade escolar ou parentes que só conseguem se reunir no fim de semana. Há, porém, quem lamente a perda da renda extra obtida com o adicional dominical.
Do lado do consumidor, a reação é dividida. Há quem veja a medida como atraso em tempos de conveniência 24 horas, especialmente para quem trabalha de segunda a sábado e deixa as compras para o último dia da semana. Outros entendem que o descanso regular é parte do equilíbrio das relações de trabalho e pode ser absorvido com planejamento.
A convenção estabelece multa equivalente a um salário do trabalhador por domingo em caso de descumprimento. Pequenos mercados de bairro podem abrir, desde que funcionem apenas com os proprietários, sem empregados registrados. Açougues e padarias continuam autorizados a operar, assim como lojas de rua e estabelecimentos em shoppings.
Para compensar o domingo fechado, redes anunciaram ampliação de horário em outros dias, concentrando esforços sobretudo na sexta e no sábado. Algumas unidades devem abrir às 7h ou estender o funcionamento até 21h30 ou 22h. O setor não detalhou se haverá pagamento de horas extras ou novas contratações para sustentar a ampliação.
O modelo não é novidade no estado. Entre 2009 e 2018, os supermercados capixabas também não funcionavam aos domingos, após acordo semelhante. A diferença agora é o contexto econômico, com desemprego em patamar historicamente baixo e disputa maior por trabalhadores no comércio.
O período de testes segue até o fim de outubro. Em novembro, sindicatos e empresários voltam à mesa de negociação para decidir se o carrinho de compras voltará a circular aos domingos ou se o estado continuará sendo exceção no mapa do varejo brasileiro.