Engie avalia minerar bitcoin em megausina solar no RN após cortes de energia do ONS
A Engie avalia instalar baterias ou data centers voltados à mineração de bitcoin no complexo solar Assú Sol, no Rio Grande do Norte, após enfrentar sucessivos cortes de geração impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS. A medida surge como alternativa para reduzir perdas em um momento em que o setor de energias renováveis convive com excesso de oferta e limitações operacionais.
Com 753 MW de capacidade instalada, o Assú Sol se tornou o maior complexo solar do portfólio global da companhia francesa. O projeto consumiu R$ 3,3 bilhões ao longo de dois anos e meio de construção e entrou em operação comercial completa neste mês. A estrutura reúne mais de 1,5 milhão de módulos fotovoltaicos e tem produção contratada por empresas que atuam no mercado livre de energia.
Cortes de geração pressionam retorno
Os chamados curtailments, restrições determinadas pelo ONS para preservar o equilíbrio do sistema elétrico, passaram a afetar com mais frequência usinas solares e eólicas no país. No caso do Assú Sol, parte da energia gerada deixa de ser escoada, o que impacta diretamente o retorno do investimento.
A situação não é isolada. Desde 2023, o avanço acelerado da geração renovável, sobretudo da geração distribuída solar, ampliou a oferta durante o dia e criou um cenário de sobreoferta no sistema. O resultado é energia produzida que simplesmente não pode ser utilizada naquele momento.
Em outras palavras, é como preparar um almoço para 10 e descobrir que só cinco apareceram. A comida está pronta, mas metade vai esfriar na mesa. No caso da energia, a conta é bem mais salgada.
Bitcoin como consumidor de energia
Diante desse cenário, a Engie passou a avaliar alternativas que criem demanda local para a energia produzida no complexo. Entre elas estão sistemas de armazenamento por baterias e data centers para mineração de bitcoin, atividade conhecida por exigir grande volume de eletricidade.
“Estamos analisando possíveis compradores para essa energia e acordos para que possamos gerar energia para ser usada na mineração de bitcoin”, afirmou o executivo responsável pela operação no Brasil.
A lógica é simples: se o sistema elétrico não consegue absorver toda a produção naquele momento, parte dela poderia ser direcionada a operações próprias instaladas ao lado da usina. A mineração de criptomoedas, nesse contexto, funcionaria como um grande consumidor de energia disponível.
Ainda assim, a empresa admite que não se trata de solução imediata. Projetos de data centers ou sistemas robustos de armazenamento levam anos para sair do papel, exigem licenciamento, infraestrutura adicional e avaliação de viabilidade econômica.
Setor solar em compasso de espera
Apesar de ter concluído o maior projeto solar de sua história global no Brasil, a Engie sinaliza cautela para novos investimentos no segmento. Segundo a companhia, não há perspectiva de expansão de capacidade solar até que haja uma solução estrutural para os cortes de geração e para o desequilíbrio entre oferta e demanda ao longo do dia.
- Complexo Assú Sol com 753 MW de capacidade instalada
- Investimento total de R$ 3,3 bilhões
- Mais de 1,5 milhão de módulos fotovoltaicos
- Produção suficiente para atender 850 mil consumidores
Segundo a Infomoney, o impasse coloca o setor diante de um paradoxo: o Brasil ampliou sua matriz renovável e consolidou posição de destaque na geração solar, mas agora precisa ajustar o sistema para acomodar esse crescimento. Enquanto isso, empresas buscam saídas criativas para evitar que a energia produzida vire prejuízo.














