O Tesouro Nacional ampliou de forma significativa sua atuação no mercado de títulos públicos ao recomprar R$ 43,6 bilhões em apenas dois dias, movimento que marca a maior intervenção desse tipo em mais de dez anos e reflete a tentativa de conter a volatilidade dos juros diante de um cenário de incerteza ampliada.
As operações ocorreram ao longo da terça-feira, com recompras de R$ 9,05 bilhões em títulos prefixados pela manhã e R$ 7,07 bilhões em papéis atrelados à inflação à tarde. Na véspera, o volume já havia alcançado R$ 27,5 bilhões, indicando uma atuação coordenada e acelerada para responder ao aumento das pressões no mercado financeiro.
O volume mobilizado supera episódios anteriores de estresse, inclusive durante a pandemia de covid-19, quando as recompras somaram R$ 35,56 bilhões ao longo de 15 dias. Também ultrapassa, em termos nominais, intervenções registradas em momentos como as manifestações de 2013 e a greve dos caminhoneiros de 2018.
A estratégia busca reduzir oscilações na curva de juros futuros, referência para as expectativas de mercado em relação à taxa básica da economia. O aumento recente dessas taxas foi impulsionado por fatores externos, como o avanço do conflito no Irã e a alta do petróleo, além de incertezas domésticas.
A decisão de intensificar as recompras chama atenção pelo timing. A atuação acontece na mesma semana em que o Comitê de Política Monetária se reúne para definir a taxa Selic, momento em que o Tesouro historicamente evita intervenções para não interferir na leitura do mercado.
A curva de juros futuros funciona como termômetro das expectativas econômicas e influencia diretamente as decisões do Banco Central
A leitura atual do mercado está dividida. Parte dos analistas projeta um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, enquanto outra parcela ainda aposta em uma redução maior. Antes da recente escalada de tensões internacionais, o cenário predominante indicava corte de 0,5 ponto.
O ambiente global contribui para o aumento da percepção de risco. A elevação dos preços do petróleo, associada ao conflito no Oriente Médio, reforça preocupações inflacionárias e impacta diretamente as expectativas sobre juros.
No cenário doméstico, o risco de uma nova paralisação de caminhoneiros adiciona pressão, relembrando os efeitos econômicos observados em 2018, quando houve impacto relevante sobre inflação e atividade econômica.
| Fator | Efeito no mercado |
| Conflito internacional | Pressão inflacionária |
| Alta do petróleo | Elevação dos custos |
| Risco de greve | Aumento da incerteza interna |
Mesmo com a atuação do Tesouro, os indicadores de mercado seguiram pressionados ao longo do dia. A taxa de juros para janeiro de 2027 subiu para 14,13% ao ano, enquanto o câmbio reduziu a queda e a bolsa perdeu parte do avanço.
A continuidade das recompras dependerá da evolução desse cenário, que segue aberto e sensível a novos eventos tanto no ambiente internacional quanto nas decisões internas previstas para os próximos dias.
Foto: © José Cruz/Agência Brasil/Arquivo