Césio-137 em Goiânia: relato de físico mostra como desastre foi identificado e quase se agravou ainda mais
O acidente com césio-137 em Goiânia voltou ao debate público após a estreia da série Emergência Radioativa, da Netflix, trazendo à tona não apenas os efeitos da contaminação, mas também os bastidores da identificação do material radioativo, que ocorreu em meio a sinais clínicos inicialmente tratados como casos isolados.
O personagem Márcio, interpretado por Johnny Massaro, é inspirado no físico Walter Mendes, um dos primeiros profissionais a perceber que o quadro apresentado por pacientes em Goiânia não correspondia a doenças comuns, mas a sintomas típicos de exposição à radiação.
Sintomas incomuns levaram à suspeita inicial
Segundo relato publicado no livro Césio-137: A história do acidente radioativo em Goiânia, lançado em 2024, o alerta começou a partir de informações repassadas por um colega do Hospital de Doenças Tropicais, que descreveu um conjunto de sintomas que não se encaixava em diagnósticos usuais.
Entre os sinais observados estavam vômito, febre, diarreia e perda de cabelo, combinação que levou à suspeita imediata de síndrome aguda de radiação. A identificação precoce desses sintomas foi decisiva para direcionar a investigação.
Objeto suspeito revelou origem da contaminação
A investigação levou a um ponto específico, um objeto que havia sido encaminhado à Vigilância Sanitária e que, segundo relatos dos pacientes, estava associado ao mal-estar apresentado por diferentes pessoas.
Tratava-se de um cilindro com aproximadamente 23 quilos, cuja origem ainda não havia sido compreendida naquele momento, mas que já concentrava a atenção das autoridades de saúde e dos especialistas envolvidos.
Ao se aproximar do local para medir os níveis de radiação, Mendes se deparou com um cenário que indicava a gravidade da situação. O equipamento utilizado para a medição não registrou valores dentro da escala esperada, levando inicialmente à suspeita de falha técnica.
O aparelho saturou a medida, ao ponto de parecer defeituoso, até que um segundo detector confirmou níveis extremamente elevados
Intervenção evitou possível ampliação do desastre
O momento mais crítico ocorreu quando uma equipe do Corpo de Bombeiros já estava no local e se preparava para remover o material. Um dos militares, sem conhecimento da intensidade da radiação, estava prestes a descartar o cilindro no rio Capim Puba.
A intervenção do físico foi imediata e impediu que o objeto fosse levado para um novo ambiente, o que poderia ampliar o alcance da contaminação e dificultar ainda mais o controle do acidente.
- Identificação inicial ocorreu após sintomas incomuns em pacientes
- Cilindro com material radioativo estava sob responsabilidade da Vigilância Sanitária
- Equipamento de medição indicou níveis extremos de radiação
- Objeto quase foi descartado em um rio antes da intervenção
Impacto do acidente redefiniu protocolos de segurança
Décadas depois, o físico avalia que o acidente com césio-137 provocou mudanças estruturais na forma como materiais radioativos são controlados e monitorados, tanto no Brasil quanto em outros países.
O episódio levou à revisão de normas de segurança, à criação de novos protocolos de emergência e ao fortalecimento da comunicação entre órgãos de saúde, defesa civil e população, em situações envolvendo riscos radiológicos.
O relato integra uma publicação oficial da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, que resgata detalhes da tragédia e contribui para a reconstrução de um dos episódios mais graves da história recente do país, enquanto discussões sobre responsabilidade, prevenção e monitoramento seguem em curso.
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