O filme O Agente Secreto resgata o Brasil de 1977 com uma frota real de carros antigos que reconstrói a atmosfera política e social do período. A escolha dos modelos, todos coerentes com a época, ajuda a contar a história tanto quanto os personagens e transforma o trânsito em parte do enredo.
A produção dirigida por Kleber Mendonça Filho apostou em um cuidado raro com a ambientação: nada de veículos modernos escondidos fora de quadro, nada de adaptações digitais. O que se vê nas ruas é o que realmente circulava no país durante os anos finais da década de 1970, quando a ditadura ainda moldava hábitos, consumo e até o desenho das cidades.
O carro mais presente é o Volkswagen Fusca, que aparece em diferentes cores e estados de conservação, refletindo a diversidade social retratada no filme. Um exemplar amarelo, ligado ao protagonista, vira quase extensão do personagem: discreto, robusto, comum, mas impossível de ignorar.
O Fusca ali não é apenas cenário. Ele traduz uma época em que o automóvel era sonho de ascensão, mas também ferramenta básica de sobrevivência urbana. Em cenas de rua, o modelo surge misturado a pedestres, ônibus e vendedores, compondo um retrato vivo de um Brasil que ainda aprendia a conviver com o próprio crescimento.
Além do Fusca, a produção reuniu dezenas de modelos que marcaram o cotidiano brasileiro dos anos 1970. A câmera passeia por quarteirões onde cada carro ajuda a datar a cena sem precisar de legenda.
Há ainda esportivos raros e carros de produção limitada, como o VW Karmann Ghia TC, que aparecem rapidamente, quase como easter eggs para quem conhece a história do automóvel nacional.
Para alcançar o nível de verossimilhança exigido pelo roteiro, a equipe reuniu mais de 200 veículos fabricados até 1977. Não se trata de simples figurantes estacionados. Eles circulam, cruzam a câmera, disputam espaço, fazem barulho, soltam fumaça, criam a textura sonora e visual de um tempo em que a cidade tinha outro ritmo.
O trânsito mais lento, os motores carburados, os carros sem ar-condicionado, tudo contribui para uma sensação física de calor, tensão e espera, sentimentos que dialogam diretamente com o clima político vivido pelos personagens.
Em “O Agente Secreto”, cada modelo ajuda a situar classe social, função e até risco. Um Opala escuro sugere autoridade. Um Fusca gasto indica anonimato. Uma Rural estacionada perto de prédios oficiais remete a vigilância. Nada é gratuito.
O automóvel vira linguagem cinematográfica. Ele diz onde a cena acontece, quem manda naquele espaço e quem apenas tenta passar despercebido. É o tipo de detalhe que o espectador talvez não perceba conscientemente, mas sente.
Ao optar por carros autênticos, o filme evita o artificialismo e entrega algo raro: a sensação de estar realmente em 1977. Não é só figurino, não é só cenário. É a cidade em funcionamento, com seus ruídos, engarrafamentos, buzinas e motores que hoje já não existem.
O resultado é uma narrativa em que as ruas falam, os carros participam e o passado deixa de ser abstração. Em “O Agente Secreto”, o Brasil daquela década não é apenas lembrado, ele circula diante da câmera, roda a roda, como se ainda estivesse tentando escapar de algo que insiste em segui-lo.