Jornada de trabalho: alteração na escala pode elevar custos e impactar preço dos carros no Brasil
Pontos Principais:
- Redução da jornada de 44 para 36 horas sem corte salarial pode elevar custos industriais e logísticos.
- Montadoras terão de rever turnos, contratar mais equipes ou investir em automação para manter produção.
- Fornecedores e concessionárias sentem pressão nas margens e no preço final ao consumidor.
- Entidades defendem negociação coletiva para evitar perda de competitividade e impacto no emprego.

Entidades do comércio alertaram em que a proposta de reduzir a jornada semanal para 36 horas, sem corte de salário, pode elevar custos e afetar a competitividade, um impacto que atinge em cheio a cadeia automotiva, das linhas de montagem às concessionárias.
A discussão que hoje avança no Congresso sobre o fim da escala 6×1 e a diminuição da carga horária não fica restrita ao campo jurídico ou sindical. Para a indústria de veículos, trata-se de uma mudança capaz de alterar o ritmo das fábricas, pressionar custos, mexer na organização de turnos e, no fim da linha, chegar ao bolso de quem compra carro no Brasil.
🏭 Fábricas no limite de eficiência
Nas montadoras, cada minuto de produção é calculado. As linhas operam em turnos ajustados para extrair o máximo de cada hora trabalhada. A redução da jornada de 44 para 36 horas semanais, mantendo os salários, obriga as empresas a escolher entre três caminhos: contratar mais gente, pagar mais horas extras ou aceitar produzir menos.
Em qualquer uma dessas alternativas, o custo sobe. Estimativas das entidades empresariais indicam que a folha de pagamento poderia crescer entre 18% e 27%, dependendo da estrutura de turnos. Em plantas que funcionam 24 horas por dia, isso significa ampliar equipes inteiras para manter o mesmo volume de carros saindo da linha.
O efeito é direto no custo por veículo. Com margens já pressionadas pela concorrência de importados e pelo avanço das marcas chinesas, principalmente no segmento de elétricos, a conta fica ainda mais apertada.
🔩 Autopeças sentem primeiro
Antes mesmo de o impacto chegar ao consumidor, ele passa pelos fornecedores. A cadeia de autopeças opera com contratos de longo prazo e preços muitas vezes travados. Um aumento repentino de custo trabalhista, sem espaço para repasse, compromete a rentabilidade de empresas médias e pequenas.
Para manter entregas no prazo, muitas teriam de rever escalas, contratar pessoal ou investir em automação. Quem não conseguir acompanhar pode perder espaço na cadeia, acelerando um processo de concentração que já vem ocorrendo no setor.
🚛 Logística mais cara e mais complexa
O transporte de veículos e componentes também entra na equação. Menos horas disponíveis por motorista e operador de pátio exigem reprogramação de rotas, ajustes em centros de distribuição e ampliação de equipes.
Num setor que trabalha com estoques enxutos e entregas sincronizadas, qualquer atraso gera efeito dominó, afetando a produção nas fábricas e o abastecimento das concessionárias.
🏬 Concessionárias entre custo e atendimento
No varejo automotivo, a mudança pode ser sentida no dia a dia do consumidor. Oficinas, funilarias e áreas de atendimento funcionam em jornadas longas para diluir custos fixos. Com menos horas por funcionário, a alternativa é montar mais turnos ou reduzir horário de funcionamento.
Ambas pressionam o caixa. O serviço fica mais caro e a margem, que já é estreita na venda de carros novos, sofre ainda mais. Por outro lado, se a renda for mantida e o trabalhador ganhar mais tempo livre, pode haver aumento no fluxo de pessoas em lojas e concessionárias, com reflexo positivo em vendas e pós-venda.
⚖️ Negociação coletiva como ponto de equilíbrio
É nesse cenário que ganha força a defesa da negociação coletiva, como revelado pelo Sindilojas-sp. A indústria automotiva tem histórico de acordos específicos por planta, com bancos de horas, turnos diferenciados e ajustes conforme a demanda.
Uma redução imposta de forma uniforme ignora diferenças regionais, níveis de automação e volumes de produção. Já uma transição negociada permite adaptar jornadas sem romper o equilíbrio entre custo, produtividade e emprego.
📊 O tamanho do impacto
| Indicador | Cenário atual | Com jornada reduzida | Efeito esperado |
|---|---|---|---|
| Jornada semanal | 44 horas | 36 horas | Menos tempo por turno |
| Custo da folha | Padrão atual | + 18% a 27% | Pressão sobre margens |
| Produção | Ritmo atual | Reorganização de turnos | Risco de menor volume |
| Preço do veículo | Competitivo | Tendência de alta | Repasse parcial ao consumidor |
🤖 A resposta pode vir da tecnologia
Com menos horas disponíveis, a busca por produtividade tende a se intensificar. Automação, robôs colaborativos, sistemas de controle por inteligência artificial e digitalização de processos deixam de ser apenas projetos de eficiência e passam a ser estratégicos para manter competitividade.
Na prática, a redução da jornada pode acelerar investimentos em indústria 4.0, reorganização de fluxos e modelos de gestão baseados em resultados, não apenas em tempo de permanência na fábrica ou na oficina.
🧭 Entre custo, emprego e competitividade
A possível mudança no regime de trabalho coloca o setor automotivo diante de um dilema. Sem diálogo, o risco é de aumento de custos, perda de competitividade e pressão sobre preços. Com negociação e planejamento, a transição pode estimular modernização, ganho de eficiência e melhoria nas condições de trabalho.
Para uma indústria que já enfrenta a transformação trazida pela eletrificação, conectividade e novos modelos de negócio, a discussão sobre jornada passa a ser mais um fator decisivo na forma como o Brasil vai produzir e vender carros nos próximos anos.














