Na quarta-feira, o site da Olympikus cometeu um erro. Tênis que normalmente custariam até R$ 1.200 estavam saindo por R$ 159. Um bug. Uma falha humana ou técnica — talvez as duas. O caos que se seguiu foi menos sobre tecnologia e mais sobre o retrato fiel do que virou o Brasil: um país em que o discurso anticorrupção é só verniz, porque, na prática, todo mundo está pronto pra meter a mão quando ninguém está olhando.
Foi só o sistema piscar que uma horda de supostos cidadãos de bem correu pra garantir seu par de tênis “de R$ 1.200 por R$ 159”. Não por necessidade. Não por justiça social. Mas pela euforia de levar vantagem. De hackear o sistema — nem que pra isso precisasse pisar na ética e jogar a moral no ralo.
E o pior: fazem isso se achando os espertos da rodada. “A empresa é grande, que se dane”, “bug não é problema meu”, “se tá no site, é direito meu”. A lista de desculpas é infinita — e tão cínica quanto um deputado explicando offshore em paraíso fiscal.
Não, você não é Robin Hood. Você não está corrigindo injustiça social, não está desafiando o capitalismo selvagem e muito menos sendo um consumidor consciente. Você está sendo desonesto. Ponto. E o que mais incomoda é que isso parte das mesmas pessoas que vomitam moralismo nas redes, exigem ficha limpa e compartilham vídeo de político sendo preso como se fossem paladinos da decência nacional.
A verdade é amarga, mas precisa ser dita: você que se aproveita de erro de sistema pra lucrar é tão parte do problema quanto os corruptos que finge odiar. Porque a raiz é a mesma: “se eu tiver a chance, eu pego”. A corrupção começa aí. No pequeno. No tênis. No cupom que você sabe que não é real. No “jeitinho”. No clique que engana.
Enquanto isso, quem empreende honestamente nesse país toma porrada. Abrir uma empresa no Brasil é como correr com os dois pés amarrados enquanto jogam pedra em você. É CNPJ sufocado por impostos, é burocracia kafkiana, é Pix que não compensa, é loja virtual que precisa vender no prejuízo pra competir com app estrangeiro. E quando finalmente engatam uma operação, um bug vira uma carnificina. E o público, em vez de demonstrar empatia, se comporta como abutre.
O bug da Olympikus mostrou que o brasileiro médio não tem problema com roubo — tem problema com não lucrar com ele. Esse é o ponto. Porque se tivesse um pingo de coerência, se lembraria que a mesma lógica vale quando é o Estado que comete erro. Quando é o banco que cobra errado. Quando é o político que desvia e depois diz que foi engano de assessoria. Mas não. Quando é a gente que lucra, o erro vira oportunidade.
Sabe o que isso gera? Um ciclo podre. Uma sociedade em que ninguém mais confia em ninguém. Onde o consumidor quer trapacear a loja, a loja antecipa e cobra mais caro, o governo regula mal, o empreendedor desiste e o ciclo se repete. E depois você quer o quê? Um país justo?
Não dá pra pedir honestidade em Brasília e praticar malandragem no carrinho de compras.
A Olympikus pode até decidir honrar ou cancelar os pedidos. Isso é problema jurídico. O que está em jogo aqui é o moral. É o quanto a gente se acostumou a normalizar a sacanagem. E a tratá-la como mérito. Como inteligência. Como “oportunidade”.
O Brasil não precisa de mais gente esperta. Precisa de gente decente. De gente que veja um bug e pense: “algo está errado, não vou me aproveitar”. Porque se não formos capazes de agir corretamente quando ninguém está olhando, não somos cidadãos — somos cúmplices.
E, se for pra ser cúmplice de alguma coisa, que seja da construção de uma cultura menos podre. Uma que não celebre quem rouba pouco e odeie só quem rouba muito. Uma que reconheça que caráter não se mede em quantos tênis você conseguiu com 80% de desconto, mas em quantos você recusou porque sabia que o preço estava errado.
Porque, no fim das contas, o bug que mais precisa ser consertado não está no site da Olympikus. Está na mentalidade de um país inteiro.
Em contato com assessoria da empresa, foi enviado a seguinte nota para o Carro Das Notícias (Carro.Blog.Br)
Na manhã de quarta-feira (23/07/2025), tivemos uma instabilidade sistêmica em nosso ecommerce que fez com que fossem alterados os preços de todos os produtos Olympikus.
Informamos que todos os pedidos que aconteceram durante esse momento serão cancelados e o valor será restituído integralmente.
Essa não é a experiência que gostaríamos de proporcionar aos nossos clientes. Lamentamos o ocorrido, informamos que já resolvemos a instabilidade, e contamos com a compreensão. Permanecemos à disposição pelo nosso SAC para qualquer dúvida ou suporte adicional.
Time Olympikus