Quem chega ao Nissan Kicks de primeira geração normalmente não está buscando novidade, está tentando evitar erro. Em um mercado cheio de SUVs recém-lançados, cheios de promessas e ainda pouco testados, o Kicks aparece como aquele carro que todo mundo conhece, mas que poucos param para analisar com calma antes de decidir.
A dúvida real não surge no anúncio ou na concessionária, ela aparece depois de alguns meses de convivência, quando o carro deixa de ser expectativa e passa a fazer parte da rotina, dos gastos fixos e das comparações inevitáveis.
Quando foi lançado em 2016, o Kicks já nasceu com uma proposta clara, ser um SUV urbano, simples de dirigir e fácil de manter. Ao longo dos anos, o mercado mudou, os concorrentes ficaram maiores, mais potentes e mais tecnológicos. Ainda assim, a Nissan decidiu manter essa geração em linha em 2025, agora como Nissan Kicks Play. Não foi uma decisão estética ou emocional, foi estratégica.
É justamente o tempo de mercado que começa a pesar a favor. O Kicks já passou pelo teste que muitos rivais ainda enfrentarão. Ele já rodou em ruas ruins, já encarou revisões fora da garantia, já mostrou como envelhece. E isso muda a conversa para quem não quer ser cobaia de projeto novo.
O conjunto mecânico do Kicks nunca foi pensado para empolgar. O motor 1.6 aspirado flex entrega até 113 cavalos de potência e 15,3 kgfm de torque em um funcionamento progressivo e previsível, números que não chamam atenção em ficha técnica, mas que fazem sentido quando o uso vira rotina.
Até 2021, a potência era um pouco maior, mas as mudanças feitas para atender às normas ambientais mantiveram o caráter do carro. Ele responde de forma linear, sem sustos, sem picos e sem exigir adaptação do motorista. No trânsito pesado, isso reduz desgaste. Na estrada, exige planejamento. E é exatamente nesse ponto que a percepção começa a se dividir.
Até aqui, o Kicks parece confortável demais para um SUV compacto. Mas é quando surgem as ultrapassagens e retomadas que a conta começa a mudar.
Na cidade, o Kicks se mostra no elemento certo. Direção leve, posição elevada e boa visibilidade fazem diferença quando o carro vira extensão da rotina. O câmbio CVT prioriza suavidade, não rapidez, e isso agrada quem passa mais tempo em congestionamento do que em estrada aberta.
É nesse uso repetido que o carro começa a se justificar. A economia no abastecimento aparece de forma constante, sem variações bruscas, e isso cria uma sensação de controle financeiro que nem sempre está presente em SUVs mais novos e potentes.
Com o tempo, o foco deixa de ser aceleração e passa a ser previsibilidade. E essa troca nem sempre acontece de forma consciente. Ela simplesmente se impõe.
O Nissan Kicks não parece grande à primeira vista. Só que, aos poucos, o espaço começa a se revelar. Com 4,31 metros de comprimento e 2,61 metros de entre-eixos, ele acomoda passageiros sem aperto e entrega um porta-malas de 431 litros, um dos maiores entre os SUVs compactos vendidos no Brasil.
Esse número deixa de ser estatística quando o carro passa a carregar compras grandes, malas de viagem ou compromissos familiares inesperados. A altura em relação ao solo também entra nessa conta silenciosa, permitindo encarar valetas, rampas e ruas irregulares sem preocupação constante com o para-choque.
Até aqui, o Kicks parece resolvido demais para um projeto antigo. Mas é quando o interior começa a ser analisado com mais atenção que surgem as concessões.
Dentro do Kicks, não há tentativa de impressionar. O acabamento é simples, os materiais são funcionais e a proposta é clara. Tudo está onde deveria estar. O ar-condicionado cumpre bem o papel, a ergonomia é intuitiva e a visibilidade ajuda quem dirige em ambientes urbanos cheios.
A ausência de itens como saída de ar para o banco traseiro ou apoio de braço central começa a ser percebida com o uso contínuo, não no primeiro contato. E é nesse ponto que o comprador passa a comparar, muitas vezes sem perceber, com SUVs mais recentes e mais caros.
O problema não é o que o Kicks entrega. É o que ele faz você colocar na balança depois.
No pós-venda, o Kicks se beneficia da própria idade. As revisões programadas seguem valores compatíveis com o segmento e a rede já conhece bem o modelo. Peças fora da manutenção básica podem pesar mais, mas a imagem de mecânica durável e baixo histórico de problemas recorrentes ao longo dos anos reduz a chance de gastos inesperados.
Essa previsibilidade cria um tipo específico de vínculo. Não é paixão, é confiança. O carro passa a cumprir exatamente o papel que foi combinado no momento da compra, sem tentar surpreender.
Depois de meses ou anos de convivência, o Nissan Kicks de primeira geração deixa de ser avaliado como produto e passa a ser encarado como ferramenta. Ele não disputa status, não busca protagonismo e não tenta acompanhar cada nova tendência do mercado.
Em algum momento, a comparação muda de direção. A pergunta deixa de ser se ele é melhor do que outros SUVs compactos. Passa a ser se o perfil de quem dirige combina com um carro que privilegia constância, economia e comportamento previsível, mesmo quando o mercado inteiro insiste em vender novidade como solução.
É nesse cenário prático, entre trânsito, abastecimento, viagens e gastos mensais, que a dúvida realmente se forma. Não sobre o Nissan Kicks. Mas sobre o tipo de relação que se espera ter com o próximo carro.