Quem diria que um Fiat Uno fabricado em 2013, com motor 1.0 de 65 cv e interior tão simples que mal havia o que quebrar, chegaria aos classificados por R$ 40 mil, valor que parece ainda mais estranho quando se lembra de que o Mille Way nasceu para ser um carro barato, fácil de consertar e capaz de sobreviver às ruas brasileiras sem exigir grandes sacrifícios do dono.
O pequeno Fiat Uno Mille 2013 atravessou uma época em que comprar um carro popular significava levar para casa quatro rodas, um motor conhecido pelo mecânico da esquina e pouco mais do que isso, mas havia algo especial naquela versão Way, com suspensão elevada, molduras laterais e uma aparência aventureira que fazia o velho Uno parecer preparado para enfrentar qualquer buraco que aparecesse no caminho.
O tempo passou, os carros novos ficaram mais caros e aquele hatch quadradinho, que parecia destinado a desaparecer das ruas, continuou trabalhando, levando gente ao serviço, buscando crianças na escola e enfrentando o asfalto maltratado das cidades, enquanto os exemplares bem conservados começaram a ficar cada vez mais difíceis de encontrar nas lojas de usados.
Debaixo do capô está o motor 1.0 Fire flex de 65 cv, acompanhado de um câmbio manual de cinco marchas, um conjunto que não foi feito para impressionar ninguém na saída do semáforo, mas que conquistou motoristas pela facilidade de encontrar peças e pela possibilidade de fazer boa parte dos reparos sem depender de oficinas especializadas ou equipamentos caros.
Na cidade, onde ninguém precisa chegar aos 100 km/h entre uma lombada e outra, o Mille Way encontra seu lugar, com dimensões pequenas que facilitam estacionar, direção hidráulica que deixa as manobras mais leves e suspensão elevada que ajuda a passar por valetas e buracos sem exigir o mesmo cuidado de quem dirige um Chevrolet Celta mais baixo.
O consumo também explica parte da saudade que esse Fiat deixou, com médias urbanas de 12,1 km/l usando gasolina e 8,4 km/l com etanol, enquanto o tanque de 50 litros permite passar bastante tempo longe do posto, embora a autonomia próxima de 680 km dependa de condições diferentes das médias urbanas apresentadas.
A personalidade muda quando a cidade fica para trás e aparece uma rodovia, porque os 65 cv precisam trabalhar bastante para levar o carro carregado, a aceleração de 0 a 100 km/h leva cerca de 14,7 segundos e qualquer ultrapassagem exige espaço, atenção e paciência, especialmente quando há passageiros e bagagem.
O próprio barulho ajuda a lembrar a idade do projeto, com pouco isolamento acústico, acabamento de plásticos rígidos e uma posição de dirigir que não oferece os ajustes encontrados em carros mais modernos, características que fazem parte daquela época em que a Fiat procurava economizar até nos detalhes que o motorista tocava todos os dias.
Apesar do tamanho, o porta-malas de 290 litros ainda recebe compras de supermercado, mochilas e bagagem para uma viagem curta, enquanto o interior consegue acomodar quatro adultos sem grandes apertos, embora o conforto esteja longe de ser o principal motivo para escolher um Mille Way.
Algumas unidades saíram equipadas com ar-condicionado, vidros elétricos, travas elétricas e alarme, itens que fazem diferença em um carro dessa idade e que precisam ser testados individualmente, porque encontrar um exemplar completo é bom, mas descobrir que metade dos equipamentos deixou de funcionar transforma a compra em uma sequência de visitas ao eletricista.
A surpresa aparece quando o interessado começa a procurar um desses carros, pois os anúncios do Uno Mille Way 2013 vão de aproximadamente R$ 22,9 mil a R$ 40 mil, enquanto a referência de preço apresentada para a Tabela Fipe fica perto de R$ 30 mil, diferença que coloca a conservação, a quilometragem e os opcionais no centro da negociação.
Pagar perto do valor mais alto exige encontrar um carro realmente preservado, porque a fama de manutenção simples não impede que um Uno maltratado esconda problemas capazes de consumir rapidamente o dinheiro reservado para a compra.
A suspensão dianteira merece uma volta por ruas irregulares, ouvindo possíveis batidas secas que podem denunciar desgaste de buchas e amortecedores, peças que trabalham bastante em um carro cuja altura maior muitas vezes incentiva o motorista a enfrentar buracos sem reduzir tanto a velocidade.
O câmbio também precisa ser experimentado com calma, passando por todas as cinco marchas e observando se os engates são precisos, se existe folga no trambulador ou se alguma marcha arranha, porque um conserto nesse conjunto pode chegar a R$ 1.500 e tirar parte da graça de comprar um carro conhecido por custar pouco na oficina.
A carroceria merece atenção ainda maior, especialmente nas caixas de ar, no assoalho e nas junções das portas, onde sinais de ferrugem podem revelar problemas que uma pintura bonita não consegue resolver, enquanto os comprovantes de troca de óleo e correia dentada ajudam a mostrar se o antigo proprietário cuidou do motor Fire como deveria.
Vidros, travas, alarme e ar-condicionado precisam funcionar durante a visita, sem aceitar a promessa de que basta trocar uma peça barata depois da compra, porque um carro de 2013 já passou por tempo suficiente nas mãos de diferentes donos para acumular adaptações elétricas, contatos desgastados e reparos mal executados.
O Uno Mille Way chegou aos 13 anos de idade sem perder aquilo que o tornou querido, a capacidade de resolver a vida de quem precisa de transporte simples, consumo contido e um carro que qualquer oficina conhece, mas seu preço nos classificados já não combina tão facilmente com a antiga imagem de automóvel popular.
Talvez seja essa a maior ironia da história, porque o Fiat criado para custar pouco passou a exigir uma quantia considerável justamente por conservar qualidades que desapareceram de parte dos carros mais modernos, e quem encontra um exemplar bem cuidado entende por que seus donos têm tão pouca pressa de entregá-lo a uma loja.
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