A aposta de Warren Buffett na fabricante chinesa BYD, feita em 2008, parecia arriscada à época, mas se provou uma das mais lucrativas da história recente do mercado automotivo e financeiro. Quando a Berkshire Hathaway, braço de investimentos comandado por Buffett e Charlie Munger, desembolsou US$ 230 milhões por 10% da empresa, os carros elétricos ainda eram vistos como uma curiosidade tecnológica sem escala industrial consolidada.
Ao longo de 17 anos, a valorização das ações da BYD ultrapassou 4.500%, transformando aquele investimento inicial em aproximadamente US$ 7 bilhões. A multiplicação por 30 do capital aplicado reforça a reputação de Buffett como um investidor com visão de longo prazo, capaz de identificar oportunidades antes de se tornarem óbvias para o mercado tradicional. Em março de 2024, a BYD alcançava sua máxima histórica na Bolsa de Hong Kong.
A operação de saída, no entanto, não foi feita de forma abrupta. Desde 2022, a Berkshire já vinha reduzindo gradualmente sua participação, em um movimento calculado para não provocar pânico nos mercados e para capturar os lucros acumulados ao longo da trajetória. A confirmação da liquidação total veio apenas agora, com impacto imediato nas ações da BYD, que caíram 3,4% no pregão seguinte à notícia. Foi a maior retração em três semanas.
Essa retirada também coincidiu com um momento de instabilidade no setor de veículos elétricos, especialmente na China. A indústria local enfrenta hoje um cenário de superprodução, queda na demanda e acirramento da concorrência. Esse ambiente gerou uma guerra de preços que compromete as margens das montadoras e dificulta a sustentabilidade dos negócios, mesmo para gigantes como a BYD. A empresa ainda teve sua cotação afetada por um desdobramento de ações em julho, que antecipou nova desvalorização de 16%.
O impacto simbólico da saída da Berkshire Hathaway vai além do valor financeiro. Buffett e Munger não eram apenas acionistas: foram avalistas da viabilidade da BYD no mercado global. Charlie Munger, inclusive, recomendou o investimento ao lado de Li Lu, da Himalaya Capital, e foi peça-chave na decisão de apostar na montadora chinesa. Para a BYD, o apoio da dupla serviu como um selo de credibilidade nos anos em que os carros elétricos ainda despertavam dúvidas.
Diante do movimento da Berkshire, a BYD reagiu com uma declaração diplomática. Li Yunfei, gerente de marca e relações públicas da empresa, agradeceu o apoio ao longo de 17 anos em publicação feita na rede social chinesa Weibo. O tom buscou suavizar a percepção de abandono e reforçar que compra e venda fazem parte do ciclo natural do mercado acionário. Ainda assim, o desconforto entre investidores e analistas ficou evidente.
A volatilidade nas ações da BYD também reflete a crescente tensão entre as estratégias de expansão chinesas e as barreiras regulatórias globais. A empresa ampliou sua presença internacional, inclusive no Brasil, onde incomoda rivais com preços agressivos e forte apelo tecnológico. Ao mesmo tempo, enfrenta resistências políticas e econômicas, como as que motivaram processos de dumping, boicotes e críticas de concorrentes estabelecidos.