A recente atualização climática divulgada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica um cenário preocupante para os próximos anos, com a possibilidade de o mundo enfrentar temperaturas recordes e eventos climáticos extremos. O levantamento mostra que existe 80% de chance de o planeta bater um novo recorde anual de calor até 2029. Além disso, a possibilidade de o aquecimento global ultrapassar 1,5°C em relação ao período pré-industrial já atinge 86%, demonstrando a necessidade urgente de ações coordenadas para limitar esses impactos.
Pontos Principais:
Esses dados confirmam que, mesmo após uma década de calor recorde, ainda não há sinal de estabilização. O secretário-geral adjunto da OMM, Ko Barrett, reforçou que os últimos dez anos foram os mais quentes da história registrada, sem previsão de arrefecimento. O documento destaca a necessidade de reduzir drasticamente as emissões de combustíveis fósseis como principal estratégia para conter o avanço das mudanças climáticas.
Segundo Peter Thorne, climatologista da Universidade de Maynooth, a continuidade no aumento das temperaturas é resultado direto das emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de carvão, petróleo e gás. Esses gases de efeito estufa são responsáveis por impulsionar o aquecimento, o que torna cada fração adicional de grau um fator de intensificação de eventos como secas, inundações e incêndios florestais.
A OMM estima que o período de 2025 a 2029 deve ter um aquecimento médio de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Essa previsão coloca em risco o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris, que buscava limitar o aquecimento a esse patamar em longo prazo. Apesar de a média de 20 anos ser a referência para o tratado, o aumento consistente ano após ano aproxima o planeta de um ponto crítico.
Um ponto considerado alarmante pela comunidade científica é a pequena, mas inédita, possibilidade de que o aquecimento global atinja 2°C antes de 2030. Essa probabilidade ainda é de apenas 1%, mas já representa um marco estatístico que não constava em relatórios anteriores. A aceleração desse processo resulta da combinação de fatores climáticos naturais e das emissões contínuas de gases de efeito estufa.
Christopher Hewitt, diretor dos Serviços Climáticos da OMM, explica que diferentes métodos de análise foram usados para chegar a essas projeções, como a comparação entre dados observados e modelos climáticos globais. A análise indica um aquecimento médio atual de 1,44°C para o período de 2015 a 2034. Essa aproximação com o limite de 1,5°C reforça a urgência em adotar políticas de mitigação mais eficazes.
As consequências desse cenário vão muito além das variações de temperatura. Segundo o relatório, cada aumento adicional no aquecimento intensifica os efeitos adversos à saúde humana, à agricultura e aos ecossistemas. Eventos como ondas de calor, chuvas extremas e secas prolongadas devem se tornar mais frequentes e severos, pressionando os sistemas de saúde e as economias nacionais.
Friederike Otto, climatologista do Imperial College de Londres, destacou que os impactos já estão em curso, como as recentes inundações registradas na Austrália, França, Argélia, Índia, China e Gana, além de incêndios no Canadá. Esses fenômenos afetam diretamente comunidades vulneráveis e representam um alerta para a necessidade de adaptação e prevenção.
O climatologista Leon Hermanson, do Met Office, observou que 2025 provavelmente será um dos três anos mais quentes já registrados, com reflexos imediatos na saúde pública e na agricultura. A falta de políticas mais incisivas para reduzir o consumo de carvão, petróleo e gás natural agrava ainda mais o quadro, como apontam especialistas que participaram da atualização climática.
O relatório da OMM ressalta que o aquecimento não será distribuído de forma igualitária em todas as regiões. O Ártico, por exemplo, deve aquecer até 3,5 vezes mais rápido que a média global nos próximos cinco anos. Isso ocorre porque o derretimento do gelo marinho reduz a capacidade de reflexão do calor solar, acelerando o processo de aquecimento.
Na Amazônia, as previsões indicam mais períodos de seca, enquanto o sul da Ásia, o Sahel e o norte da Europa podem registrar aumento nas chuvas. Essa variação entre regiões exige estratégias diferenciadas para enfrentar os impactos, considerando as especificidades de cada local.
Chris Hewitt afirmou que, embora o cenário seja desafiador, ainda existe a possibilidade de reverter parte desse processo com a redução imediata das emissões de combustíveis fósseis. Essa redução, no entanto, depende de um esforço global coordenado e de políticas públicas eficazes que priorizem fontes de energia mais limpas e renováveis.
Fonte: Agenciabrasil.