A dependência do Brasil em relação ao diesel importado da Rússia se tornou o novo epicentro de uma crise diplomática e econômica iminente. Com as novas ameaças dos Estados Unidos de impor tarifas pesadas a países que continuarem negociando petróleo com Moscou, a pressão recai diretamente sobre Brasília. Atualmente, mais da metade do diesel que chega ao território brasileiro tem origem russa, e o alerta da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis) não poderia ser mais claro: não há, neste momento, fornecedores capazes de preencher esse vazio com a mesma eficiência logística e custo.
Sérgio Araújo, presidente da Abicom, destacou que uma eventual interrupção das importações de diesel russo provocaria dificuldades imediatas de abastecimento. Os números revelam a gravidade: 61% do diesel importado entre janeiro e junho veio da Rússia. O segundo maior fornecedor, os Estados Unidos, responde por apenas 24%. Os demais países somam percentuais muito pequenos, como Arábia Saudita (6%) e Omã (3%), sem capacidade operacional para escalar suas exportações ao nível que o Brasil necessita.
O efeito colateral seria sentido em várias camadas. De uma hora para outra, caminhões, ônibus e setores inteiros da economia poderiam sofrer com atrasos, aumento de custos e escassez. A logística brasileira, que já enfrenta gargalos, se tornaria ainda mais frágil diante da falta de combustível a preços competitivos. O alerta da Abicom ecoa não só no setor energético, mas em toda a cadeia produtiva que depende diretamente do diesel para operar.
A decisão da Casa Branca de penalizar países que mantêm comércio com a Rússia vem se consolidando. A Índia já começou a sentir os efeitos, com uma tarifa de 25% sobre seus produtos exportados aos EUA. Trump, em tom mais agressivo, prometeu elevar essas tarifas para até 100% aos países que desafiarem a estratégia americana de isolamento econômico de Moscou. A ameaça agora é global e real. Para o Brasil, representa mais do que um dilema diplomático: trata-se de uma ameaça à segurança energética nacional.
Mesmo que o governo brasileiro decida acatar as exigências de Washington, não há garantia de que outros fornecedores conseguirão atender à demanda com rapidez e escala. A Abicom sugere negociações com refinarias no Golfo do México e também com países do Oriente Médio, como Kuwait, Emirados Árabes e Qatar. Contudo, há obstáculos significativos, tanto logísticos quanto políticos. Além disso, o custo seria bem mais alto do que o diesel russo atualmente praticado, o que impactaria diretamente os consumidores e a inflação.
O silêncio do governo federal diante da ameaça é interpretado por muitos analistas como hesitação diante de uma escolha difícil. Ceder às pressões americanas pode gerar um vácuo imediato de fornecimento. Ignorar os Estados Unidos pode comprometer acordos estratégicos em outras áreas comerciais e políticas. O equilíbrio entre pragmatismo econômico e posicionamento geopolítico se tornou, mais uma vez, o centro de um debate que desafia o Itamaraty e o Ministério de Minas e Energia.
O Brasil agora se vê diante de um impasse que exige respostas técnicas, políticas e diplomáticas. As próximas semanas definirão se o país será capaz de manter seu fornecimento de diesel com autonomia ou se cederá à ofensiva de Trump, correndo o risco de mergulhar numa crise de abastecimento. Para a Abicom, o caminho está longe de ser simples e qualquer decisão precisará ser cuidadosamente calculada para evitar consequências mais graves.
Fonte: CNN.