Hilário Zaltron e Janete Niedermeyer partiram de Toledo no oeste do Paraná com um veículo raro, um Ford Corcel 1977, para entregar pessoalmente o carro ao irmão de Hilário, em Humaitá, no Amazonas. Na rota de cerca de três mil quilômetros a aventura misturou logística, resistência mecânica e o charme retrô de um clássico brasileiro, ao mesmo tempo em que revelava aspectos pouco vistos em road trips modernas.
Sem ar-condicionado e com mais de 100 mil quilômetros rodados, o Corcel acompanhou o casal por cerca de 600 quilômetros por dia ao longo de nove jornadas. As paradas incluíram Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Vilhena e Ariquemes (RO), antes da chegada ao destino. Na reta final, a travessia exige ainda transporte fluvial via balsa, o que reforça as dificuldades logísticas para levar um carro antigo até a região Norte.
Produzido entre 1968 e 1986 no Brasil, o Corcel conquistou o prêmio “Carro do Ano” em 1969, 1973 e 1979, o que evidenciou sua importância histórica na indústria automotiva nacional. Mesmo após 48 anos de fabricação, o exemplar utilizado na viagem sai da curva de descartabilidade dos clássicos e entra no território da robustez e da cultura automotiva. Sobre a ausência de ar-condicionado o casal comenta que foi o maior desafio — ainda assim o veículo não apresentou falha mecânica ou interrupção inesperada, apenas abastecimentos regulares.
Além do percurso em si, a viagem virou atração nas rodovias: curiosos abordavam o casal para admirar o Corcel, elogiar a coragem e até fazer ofertas de compra. Essa reação expõe o resgate cultural de modelos de outra época e o valor emocional que tais automóveis mantêm para entusiastas e público geral. A viagem funcionou como ponte entre gerações e regiões do país.
A etapa final exige que o carro siga de balsa entre Humaitá e Manaus, dado que a estrada se torna, em alguns trechos, de chão e inviável para uso prolongado. Essa configuração geográfica reforça os contrastes entre o Centro-Oeste e Norte brasileiros e evidencia o desafio de transportes em regiões menos urbanizadas. O trajeto de retorno para o casal foi de avião, uma decisão prática após concluir a entrega e permitir evitar o desgaste de viagem de volta no mesmo automóvel.
Do ponto de vista técnico e simbólico, a empreitada resgata a noção de que resistência mecânica, planejamento e espírito aventureiro ainda têm lugar no universo automotivo tradicional. A opção por conduzir o automóvel ao invés de contratar frete mostra uma combinação de fatores emocionais, econômicos e de logística que raramente aparecem em narrativas convencionais de compra e venda de carros. O Corcel não foi apenas meio de locomoção, mas protagonista de uma jornada que atravessa biomas, estados e memórias.
Fonte: G1.