A partir de 1º de agosto de 2025, o Brasil passa a produzir oficialmente a gasolina E30, que contém 30% de etanol anidro em sua composição. A medida foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) como parte de uma estratégia para reduzir a dependência externa de petróleo e promover um combustível mais limpo. A nova mistura trará impactos diretos no funcionamento dos veículos e no comportamento de consumo, especialmente nos modelos flex.
Embora os postos ainda estejam vendendo a gasolina com 27% de etanol — estoque fabricado até julho — a expectativa é de que a E30 esteja amplamente disponível nas bombas ao longo de agosto. Um dos principais objetivos da mudança é reduzir o preço final do combustível, com estimativa inicial de queda de até R$ 0,11 por litro, segundo projeções do governo federal. No entanto, motoristas de carros flex e donos de veículos antigos devem estar atentos às mudanças no consumo e desempenho.
Além da nova proporção de etanol, a gasolina comum também teve sua octanagem elevada de 93 para 94 RON, o que pode beneficiar motores modernos com gerenciamento eletrônico. A medida também abre espaço para futuras alterações na mistura, já previstas na nova legislação brasileira, com limite de até 35% de etanol autorizado pela Lei do Combustível do Futuro.
Um dos efeitos imediatos da introdução da gasolina E30 será percebido pelos motoristas de carros flex. Como o etanol possui menor poder calorífico que a gasolina, o consumo tende a aumentar, exigindo mais combustível para gerar a mesma energia. Isso significa que, apesar da promessa de redução de preços na bomba, o gasto total por quilômetro rodado pode se elevar, especialmente em percursos urbanos de curta distância.
Por outro lado, a nova octanagem de 94 RON compensa parcialmente essa perda. Carros flex modernos possuem centrais eletrônicas capazes de identificar o combustível e ajustar automaticamente a taxa de compressão do motor. Isso permite que o sistema de injeção aproveite o ganho de octanagem para operar em regime mais eficiente, mesmo com a maior proporção de etanol na mistura.
Em testes conduzidos por centros de tecnologia como o Instituto Mauá, foi observado que o ganho de octanagem beneficia o desempenho em acelerações e retomadas. Em alguns casos, a potência do motor pode ser levemente superior com etanol em relação à gasolina pura, variando de 1% a 2% a mais, dependendo do tipo de motor e da calibração do sistema.
Para os proprietários que abastecem apenas com gasolina, o efeito será mais evidente no consumo. O custo por quilômetro pode subir, mesmo com preço reduzido nas bombas. Ainda assim, os benefícios ambientais e a autonomia energética justificam, segundo especialistas, a decisão do governo em adotar a nova fórmula.
Diferente dos veículos modernos, os carros antigos podem sofrer com o aumento da concentração de etanol. Isso se deve principalmente à vulnerabilidade de sistemas mais antigos ao efeito corrosivo do etanol hidratado, que possui uma quantidade significativa de água em sua composição. Peças metálicas, mangueiras e sistemas de alimentação podem se degradar com maior rapidez.
Especialistas em engenharia automotiva recomendam atenção redobrada com a manutenção preventiva. Mangueiras ressecadas, vedações desgastadas e tanques de metal sem tratamento adequado podem acelerar o processo de oxidação. Em veículos que utilizam carburador, a chance de entupimento e falha no funcionamento é ainda maior.
Uma das soluções mais recomendadas é optar pela gasolina premium. Esse tipo de combustível mantém a octanagem elevada (95 RON) e contém apenas 25% de etanol anidro, o que reduz significativamente o risco de corrosão e oxidação. Apesar de mais cara, a premium pode ser um investimento necessário para veículos clássicos e colecionáveis.
A transição para o E30 exige um olhar atento por parte dos donos de veículos com mais de 20 anos. Ignorar os cuidados pode levar a danos no sistema de alimentação e, em casos extremos, comprometer o funcionamento do motor. O uso de gasolina premium se torna, assim, uma medida de proteção recomendada, ainda que com custo elevado.
Dois fatores principais motivaram o governo a implementar a nova mistura: a redução da dependência do petróleo importado e a diminuição das emissões de poluentes. O Brasil, apesar de ser autossuficiente na produção de etanol, ainda precisa importar volumes expressivos de gasolina para atender a demanda nacional. Ao elevar o percentual de etanol, o país reduz a necessidade de importação e se torna mais resiliente às flutuações do dólar e do barril de petróleo.
Com a adoção do E30, estima-se que a importação de 760 milhões de litros de gasolina por ano será evitada. Em contrapartida, a produção nacional de etanol deverá crescer em 1,5 bilhão de litros, o que movimentará cerca de R$ 9 bilhões no setor sucroenergético brasileiro, beneficiando produtores e cooperativas em várias regiões do país.
O aspecto ambiental também tem peso significativo. Estudos conduzidos pela ANP e por centros técnicos mostram que o E30 emite menos gases poluentes em comparação à gasolina convencional. Embora ainda não haja um relatório público específico sobre a redução de gases de efeito estufa, a tendência é que a nova fórmula contribua positivamente para metas climáticas.
Essa mudança, porém, exige ajustes em toda a cadeia produtiva: desde o refino do combustível até a logística de distribuição e adaptação dos motores. A medida está inserida em um contexto global de transição energética, no qual o Brasil tenta se posicionar como líder em soluções sustentáveis para o setor automotivo.
A adoção da gasolina E30 é apenas o primeiro passo de uma política mais ampla prevista pela Lei do Combustível do Futuro (14.993/24), aprovada em 2024. O texto legal permite, mediante comprovação técnica, que o teor de etanol na gasolina comum suba até 35%. A ANP e o Ministério de Minas e Energia já estudam cenários para essa ampliação nos próximos anos.
Para isso, é necessário garantir que os motores comercializados no país estejam preparados para a nova proporção. A indústria automobilística, por meio da Anfavea e da Abraciclo, acompanha os testes de desempenho e durabilidade junto aos institutos de pesquisa, visando homologar a compatibilidade dos novos combustíveis com os modelos atuais e futuros.
Há também a expectativa de que novas tecnologias de gerenciamento eletrônico e materiais resistentes à corrosão se tornem padrão nas próximas gerações de veículos. Isso viabilizaria uma maior eficiência energética mesmo com misturas mais ricas em etanol, ampliando os benefícios econômicos e ambientais.
A mudança no padrão de gasolina representa um avanço relevante na matriz energética do país. A médio prazo, o Brasil tende a se consolidar como referência mundial no uso de biocombustíveis em larga escala, combinando redução de emissões, menor dependência externa e estímulo à indústria nacional. A transição para o E30 é apenas o começo.
Fonte: Gov, AutoEsporte e Folha.