O cachorro Rico não sabe quanto custa uma Ferrari, não entende o que são 725 cavalos e provavelmente não faz ideia de onde fica o Alasca, mas já acompanhou seu dono em uma aventura que levou um dos carros mais caros do mundo por estradas de terra, montanhas, fronteiras e lugares onde ninguém espera encontrar um esportivo italiano.
O dono é Em Jay, empresário alemão que vive em Dortmund e mantém negócios no Brasil, conhecido nas redes sociais como sammyautotester, nome que homenageia Sammy, seu cachorro que morreu antes da viagem e acabou dando nome à Ferrari Purosangue marrom escolhida para uma missão bastante diferente daquela imaginada pelos engenheiros de Maranello.

A Purosangue tem motor V12 aspirado de 6,5 litros, entrega 725 cv, acelera de 0 a 100 km/h em 3,3 segundos e possui tração integral, quatro portas e quatro lugares, características que permitem levar Rico junto, embora um carro desse porte e desse preço normalmente passe mais tempo diante de hotéis caros do que enfrentando pedras nas estradas da América do Sul.
Em Jay queria sair de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, e chegar a Deadhorse, no norte do Alasca, atravessando praticamente todo o continente americano ao volante da Ferrari, com paisagens que mudariam das estradas frias da Patagônia para as montanhas dos Andes, as regiões quentes da América Central e as longas rodovias da América do Norte.

Antes de começar, a Purosangue precisou trocar parte de sua elegância por equipamentos capazes de enfrentar o caminho, recebendo rodas de 20 polegadas da preparadora alemã Delta4x4 e pneus BFGoodrich Trail-Terrain T/A, enquanto a suspensão adaptativa e a tração integral ajudariam a enfrentar pisos muito diferentes daqueles encontrados nas estradas europeias.
Somente o conjunto de rodas e pneus custou mais de 12 mil euros, aproximadamente R$ 75 mil na conversão divulgada na época, uma despesa que talvez pareça pequena diante de uma Ferrari avaliada em mais de R$ 7 milhões no Brasil, mas que ajuda a entender o tamanho da preparação para uma viagem que poderia acabar muito longe de uma concessionária.

A Ferrari saiu da Alemanha de navio e chegou a Montevidéu, no Uruguai, antes de seguir para Ushuaia, onde a primeira tentativa começou em maio de 2025, com Em Jay acompanhado inicialmente pelo alemão Nicolai Böhm e disposto a provar que um carro de luxo também poderia ser usado para conhecer o mundo.
A aventura passou por lugares onde o motor V12 encontrava desafios bem diferentes de uma pista de corrida, como as montanhas da Bolívia, onde a Ferrari enfrentou uma subida próxima dos 4.950 metros de altitude, região em que o ar mais fino reduz a quantidade de oxigênio disponível para o motor e torna a resposta de um esportivo aspirado menos vigorosa.
Houve também a passagem pela Estrada da Morte, na Bolívia, com trechos estreitos, curvas fechadas e precipícios, um lugar em que os 725 cv pouco ajudam e a atenção ao volante importa muito mais do que a capacidade de acelerar de 0 a 100 km/h em pouco mais de três segundos.
A primeira grande derrota aconteceu em 6 de junho de 2025, entre Cusco e Nazca, no Peru, quando Em Jay relatou que precisou desviar de outro veículo durante uma ultrapassagem e acabou saindo da estrada, com a Ferrari caindo em uma vala e sofrendo danos que interromperam a expedição.

A suspensão, os eixos, o para-brisa, os airbags, as rodas e partes da carroceria ficaram comprometidos, mas o motorista escapou sem ferimentos graves e logo descobriu que recuperar uma Ferrari daquele tipo, longe de casa e em outro continente, poderia ser mais complicado do que atravessar algumas das estradas que havia planejado conhecer.
O carro foi rebocado até Santiago, no Chile, onde ficou aguardando peças e reparos, enquanto a viagem que deveria continuar rumo ao Alasca precisou esperar aproximadamente seis meses, tempo suficiente para transformar uma simples parada mecânica em um verdadeiro teste de paciência.
Para Em Jay, porém, abandonar a expedição significaria deixar a Ferrari marcada apenas pelo acidente, e a Purosangue voltou à estrada depois dos reparos, retomando o caminho pelas Américas até finalmente alcançar o Alasca e completar a travessia que havia sido interrompida no Peru.

A essa altura, Rico já havia se tornado parte importante da aventura, acompanhando o dono dentro de um carro que oferece espaço para quatro ocupantes, algo que permite transportar o cachorro e a bagagem sem depender da configuração apertada dos esportivos tradicionais de dois lugares.
Durante os deslocamentos, Em Jay chegou a substituir os emblemas da Ferrari por símbolos da Toyota em determinados momentos, tentando chamar menos atenção em regiões onde um carro italiano de milhões de reais poderia atrair olhares indesejados, embora o desenho da Purosangue continuasse longe de parecer o de um veículo comum.
Depois de alcançar o Alasca, a história ganhou outro objetivo, pois Em Jay queria tentar percorrer novamente a distância entre o norte do continente e a Argentina em um tempo menor, transformando uma viagem que já havia exigido meses de esforço em uma corrida contra o relógio.
A terceira tentativa começou com Rico novamente a bordo, mas uma grande interdição rodoviária interrompeu os planos apenas dois dias depois da partida, impedindo que o alemão continuasse a viagem conforme o roteiro necessário para buscar o novo tempo.
Em setembro de 2026, a Ferrari já acumulava aproximadamente 80 mil quilômetros, marca que reúne as viagens e os deslocamentos do veículo, não apenas a terceira tentativa, e que chama atenção por se tratar de um esportivo V12 normalmente associado a coleções particulares e passeios ocasionais.
Em Jay pretende voltar à estrada para tentar novamente a travessia entre o Alasca e a Argentina, com Rico ao seu lado e a mesma Ferrari que já enfrentou montanhas, estradas de terra, um acidente no Peru, seis meses de reparos e dezenas de milhares de quilômetros longe de casa.

A Purosangue foi criada para oferecer o desempenho de uma Ferrari sem abrir mão de quatro lugares e espaço para bagagem, mas Em Jay levou essa ideia muito além de uma viagem de fim de semana, transformando um carro de 725 cv em companheiro de uma aventura que ainda não terminou.
Com informações do Instagram.


