A possibilidade de bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã voltou a gerar tensão entre líderes mundiais, colocando em risco uma das rotas mais estratégicas para o comércio global de petróleo. Localizado entre o Irã e Omã, o estreito permite a passagem diária de aproximadamente 17 milhões de barris de petróleo, além de grandes volumes de gás natural liquefeito. Apesar de parte do canal estar em águas internacionais, conforme o direito marítimo da ONU, a vulnerabilidade física do local faz dele um ponto sensível e exposto à ação militar.
Com largura total superior a 30 quilômetros, o Estreito de Ormuz parece largo demais para um bloqueio ser efetivo. Porém, o tráfego de navios comerciais se concentra em dois corredores bem estreitos, cada um com apenas três quilômetros de largura e separados por uma faixa central. Isso cria um sistema de mão dupla que funciona como uma estrada marítima, extremamente previsível e, por isso, passível de ser facilmente interceptada.
O arsenal militar iraniano é vasto e inclui minas navais, mísseis antinavio, drones kamikazes e lanchas rápidas de ataque. Minas podem ser lançadas de forma furtiva por submarinos ou helicópteros, tornando difícil a detecção antecipada. Já os mísseis Noor e Khalij Fars, com alcance suficiente para atingir embarcações em pleno tráfego, podem ser movidos e ocultados pela topografia montanhosa da costa iraniana. Isso dificulta a neutralização por forças internacionais.
Outro aspecto de preocupação é o uso tático de drones e lanchas em ataques coordenados. A Guarda Revolucionária do Irã já demonstrou capacidade para executar operações de cerco, intimidação e dano direto a navios, tanto militares quanto comerciais. Recentes episódios envolvendo navios ligados a Israel e aliados ocidentais reforçam a prontidão do Irã em projetar sua influência além das fronteiras marítimas convencionais.
O histórico da região mostra que essa ameaça não é nova. Em 2019, o Irã apreendeu petroleiros britânicos como resposta à interceptação de uma embarcação iraniana em Gibraltar. Em 1988, uma mina iraniana danificou uma fragata americana, levando os Estados Unidos a retaliarem com ataques diretos a bases iranianas. No mesmo ano, um erro trágico resultou na derrubada de um avião comercial iraniano por um navio dos EUA, matando 290 civis. Esses episódios mostram como pequenas faíscas na região podem escalar rapidamente.
Mesmo sem um bloqueio declarado, a ameaça é eficaz. O simples anúncio de ações militares ou de restrições à navegação já provoca reação imediata nos mercados globais. Os preços do petróleo oscilam, rotas são desviadas e o custo de seguros marítimos dispara. Essa capacidade de provocar impacto sem precisar agir de fato transforma a ameaça do Irã em uma poderosa ferramenta de pressão política e econômica.
Apesar da vigilância constante de potências como os EUA e o Reino Unido, que mantêm presença naval permanente no Golfo Pérsico, a resposta a uma eventual tentativa real de fechamento seria complexa e possivelmente violenta. Ainda assim, o Irã segue usando essa possibilidade como carta estratégica, intensificando a instabilidade geopolítica em um momento delicado das relações com Israel e os Estados Unidos.