Era para ser só mais uma tarde comum em Uttara, bairro ao norte de Daca, Bangladesh. Crianças voltavam da aula, pais esperavam no portão, professores encerravam o expediente. Até que um estrondo, seguido de uma nuvem espessa de fumaça e gritos desesperados, transformou o pátio da Milestone School and College num cenário de guerra. Um avião de treinamento da Força Aérea havia caído em pleno horário escolar.
O modelo F-7 BGI da Força Aérea de Bangladesh decolou às 13h06. Poucos minutos depois, em vez de estar cortando o céu, estava cravado na lateral de um prédio escolar. Ferro retorcido, chamas, concreto destruído e dezenas de pessoas correndo sem saber para onde — tudo isso diante de câmeras de celular e olhos apavorados. Um aluno da terceira série morreu na hora. Outros, de 12, 14, até 40 anos, foram levados com queimaduras graves para o hospital.
Do lado de fora, as cenas pareciam saídas de um pesadelo coletivo. Gente ajoelhada, outras chorando, e muitos simplesmente paralisados, encarando a fumaça preta que subia no céu como um presságio. Vídeos feitos por moradores mostram o avião engolido pelas chamas, bombeiros correndo e um buraco grotesco aberto na parede da escola. Lá dentro, o que restava era silêncio e sirenes.
“Eu só queria pegar meus filhos”, disse Masud Tarik, professor da escola, ainda em choque. “Quando virei para trás, vi a explosão. Só fogo e fumaça.” Tarik não conseguiu terminar a frase. O trauma, como a fumaça, ainda pairava no ar. Médicos do Instituto Nacional de Queimaduras falavam em mais de 50 feridos — uma mistura de estudantes, professores e vizinhos que estavam no lugar errado na hora errada.
O governo interino reagiu como se espera: prometendo investigação, assistência e frases protocoladas. Muhammad Yunus, líder atual, chamou o episódio de “perda irreparável”. Nada que traga de volta as vidas perdidas nem que apague da memória das crianças o som metálico do avião antes do impacto. No fim das contas, tudo o que resta são escombros, promessas e luto.
Coincidência ou não, o acidente vem na esteira do desastre da Air India, há pouco mais de um mês, que matou 260 pessoas, entre passageiros e moradores de Ahmedabad. Dois acidentes brutais em pouco tempo, em dois países vizinhos, dentro de áreas urbanas. Fica no ar a pergunta que ninguém quer responder: o que mais precisa cair do céu para alguém levar segurança aérea a sério na Ásia?