A nova taxação dos Estados Unidos sobre pneus brasileiros provocou um alerta vermelho na indústria nacional. A partir de 7 de agosto, pneus agrícolas, de carga e de motocicletas passarão a ser tarifados em 50%, somando os encargos já existentes a uma taxa emergencial. A medida representa uma barreira significativa para as exportações brasileiras, sobretudo aquelas direcionadas exclusivamente ao mercado norte-americano. Pneus de passeio, por sua vez, continuam com imposto de 25%, enquanto os de aeronaves — não fabricados no Brasil — receberão tarifa extra de 10%.
A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP) calcula que a decisão afetará diretamente fábricas que produzem linhas específicas voltadas aos Estados Unidos. Segundo a entidade, em 2024, os EUA foram o destino de 35,3% de todos os pneus exportados pelo Brasil, com 1,9 milhão de unidades enviadas até junho. Em 2023, esse número já havia sido expressivo: 3,2 milhões de unidades, o que representou 33,2% do total exportado. Os pneus de carga e passeio representam a maior fatia, com volumes superiores a um milhão de unidades.
Rodrigo Navarro, CEO da ANIP, classifica o aumento tarifário como um desafio preocupante em um cenário já fragilizado pelo aumento de importações com preços abaixo do custo de produção. Essa prática, conhecida como dumping, compromete a sustentabilidade do setor, colocando em risco milhares de empregos, investimentos industriais e a própria cadeia de fornecimento de insumos nacionais. Ele afirma que o setor tem buscado interlocução com autoridades em todos os níveis, inclusive com reuniões com o vice-presidente Geraldo Alckmin e integrantes do MDIC.
A distribuição geográfica das fábricas acentua a preocupação com os impactos regionais. São Paulo é o estado mais afetado, com 52,7% da produção nacional voltada à exportação até junho de 2025, abrigando nove unidades fabris. Em seguida, vem a Bahia, com 21,9% da produção, concentrada em três fábricas. Também há impacto esperado em unidades localizadas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná, estados que mantêm operações relevantes na cadeia exportadora de pneus.
Os dados de exportação do primeiro semestre de 2025 reforçam a importância do mercado norte-americano para a indústria brasileira. Do total de 4,22 milhões de pneus de passeio exportados, 1,45 milhão foi enviado aos EUA (34%). Entre os pneus de carga, 38% foram para os americanos, com 502,8 mil unidades. No segmento de motocicletas, 63,7 mil pneus dos 751,5 mil exportados tiveram como destino os EUA. Embora os pneus agrícolas tenham menor peso nas exportações para esse mercado, qualquer retração impacta diretamente as empresas especializadas.
A ANIP reforça que parte das fábricas brasileiras mantém linhas de produção desenhadas exclusivamente para atender às normas e especificações dos Estados Unidos. Com a taxação elevada, essas empresas poderão ter dificuldades para redirecionar seus estoques a outros mercados. O risco de paralisação dessas linhas, somado à dificuldade de adaptação em curto prazo, pode gerar demissões e retração nos investimentos, aprofundando a crise industrial em setores já fragilizados.
Navarro defende uma abordagem técnica e baseada em dados para tentar reverter as tarifas junto ao governo norte-americano. Segundo ele, o diálogo precisa ser conduzido com firmeza e estratégia, aproveitando a articulação com entidades como a CNI, FIESP e FIEB, que também têm atuado para mediar a situação. A ANIP avalia que a política protecionista norte-americana, ao invés de proteger o mercado local, pode gerar distorções comerciais prejudiciais tanto para o Brasil quanto para os próprios Estados Unidos.
Fonte: Anip, Autoindustria e iG.