A formação de um ciclone sobre o Atlântico, na altura da costa do Sul do Brasil, rompeu o padrão mais comum observado nesse tipo de sistema e passou a chamar atenção por dois fatores simultâneos, a estrutura e a direção do deslocamento, que segue do mar em direção ao continente.
O sistema foi identificado na terça-feira, posicionado próximo às coordenadas 28ºS e 43ºW, com movimento em direção a Oeste-Sudoeste, algo considerado incomum para ciclones formados na costa brasileira. O comportamento contraria a trajetória habitual, que tende a afastar esses sistemas da terra em direção ao oceano.
A análise meteorológica indica que o ciclone apresenta características subtropicais, com convecção ativa no centro de circulação. Esse detalhe é relevante porque ciclones mais comuns na região são extratropicais, com núcleo frio, enquanto sistemas com núcleo quente são menos frequentes e classificados como atípicos.
O sistema reúne duas condições raras ao mesmo tempo, deslocamento retrógrado e estrutura com convecção central, o que foge ao padrão observado na costa brasileira
Sensores atmosféricos registraram incidência elevada de descargas elétricas no núcleo do ciclone, reforçando a presença de nuvens carregadas e atividade convectiva organizada. Esse tipo de configuração costuma estar associado a sistemas com maior instabilidade interna, ainda que não necessariamente represente risco direto em terra.
Apesar da trajetória em direção ao continente, os dados disponíveis indicam que o ciclone deve perder força antes de atingir o litoral. A tendência é de enfraquecimento progressivo, com dissipação ao longo da quarta-feira.
Mesmo assim, o sistema mantém capacidade de gerar vento intenso em alto-mar, com rajadas entre 70 km/h e 90 km/h. Na faixa costeira do Rio Grande do Sul, os efeitos devem ser mais limitados, com vento entre 40 km/h e 50 km/h.
A circulação do ciclone também influencia áreas fora do Sul do país. No Rio de Janeiro, a presença do sistema contribui para formação de instabilidade, com possibilidade de chuva pontualmente forte e episódios isolados de temporal.
No litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a previsão aponta pancadas de chuva ao longo da segunda metade do dia e também na quarta-feira, associadas ao vórtice do sistema.
A ausência de classificação oficial por parte da Marinha do Brasil chama atenção, especialmente diante de episódios recentes em que sistemas menos organizados receberam nomeação formal. Neste caso, mesmo com características incomuns, não houve emissão de aviso especial até o momento.
Segundo o Metsul, o cenário segue em monitoramento, com expectativa de perda rápida de organização do ciclone nas próximas horas, enquanto áreas de instabilidade ainda avançam de forma irregular sobre o litoral e pontos do Sudeste.