CNH Brasil: Jornalista conta como se tornou Instrutor autônomo credenciado pelo Detran rapidamente pelo celular
Em menos de uma hora, durante deslocamentos comuns do dia a dia, um jornalista conseguiu se tornar instrutor de trânsito no Brasil usando apenas o celular. Sem sala de aula, sem prova presencial, sem contato com alunos ou professores. A experiência, possível graças às novas regras da CNH do Brasil, ajuda a dimensionar o tamanho da mudança promovida pelo governo federal na formação de motoristas e instrutores.

A reformulação recente da CNH Digital, agora chamada oficialmente de CNH do Brasil, flexibilizou etapas, reduziu exigências e abriu caminho para a atuação de instrutores de trânsito autônomos. A promessa é tornar o processo mais acessível e barato. Na prática, isso significou a digitalização quase total da formação, inclusive para quem vai ensinar novos condutores.
O caso foi contato pelo Henrique Rodriguez da QuatroRodas, o curso de Instrutor de Trânsito do Brasil está disponível no próprio aplicativo oficial da CNH. Para se inscrever, basta atender a critérios básicos, como ter mais de 21 anos, possuir habilitação válida há pelo menos dois anos, não ter cometido infração gravíssima recente, ter ensino médio completo e não ter sofrido cassação da CNH. Com esses dados validados automaticamente, o acesso ao curso é liberado imediatamente.
O conteúdo é dividido em módulos apresentados em formato de leitura digital. Não há tempo mínimo de permanência em cada etapa. O primeiro módulo aborda fundamentos da educação, com conceitos gerais sobre postura do instrutor, empatia com o aluno, comunicação e técnicas básicas de feedback. O segundo trata da didática aplicada à formação de condutores, com orientações sobre planejamento de aulas e avaliação do aprendizado.
Esses dois módulos, que no modelo presencial tradicional somavam ao menos 36 horas-aula, podem ser percorridos rapidamente. Em deslocamentos curtos, como uma corrida de aplicativo ou uma viagem de metrô, é possível avançar por todo o conteúdo apenas passando pelos textos.
O terceiro módulo concentra fundamentos de segurança e comportamento no trânsito. Nele estão reunidos temas como legislação, sinalização, princípios de direção defensiva, noções de física aplicadas à condução, manutenção preventiva e primeiros socorros. No formato presencial, esse conjunto corresponde a mais de 100 horas-aula. No curso online, aparece condensado em 17 etapas de leitura.
Ao final do curso, o candidato realiza uma prova online com 30 questões. Não há tempo limite para responder. O sistema corrige automaticamente e informa o resultado na hora. Com aproveitamento acima de 70%, o certificado digital de instrutor de trânsito é emitido imediatamente.
Mesmo com o certificado, ainda é necessário solicitar o registro no Detran do estado para exercer a atividade. Esse pedido também é feito online. Após a validação, o nome do instrutor passa a constar no cadastro do Ministério dos Transportes e pode ser consultado pelo próprio aplicativo da CNH, que lista profissionais autorizados.
Com o registro ativo, o instrutor autônomo pode ministrar aulas práticas usando veículo próprio. A nova regulamentação não exige que o carro tenha pedais duplicados de freio e embreagem, como nos veículos de autoescola. As aulas devem ser registradas e validadas no sistema oficial.
A flexibilização também atinge diretamente os alunos. A carga mínima de aulas práticas obrigatórias caiu de 20 horas-aula para apenas duas. A parte teórica deixou de exigir frequência em curso formal, podendo ser estudada de forma independente ou pelo curso online do governo.
A justificativa oficial é reduzir custos e ampliar o acesso à CNH, especialmente para pessoas de baixa renda e para quem já dirige informalmente. Especialistas, porém, alertam para riscos na qualidade da formação, tanto de novos motoristas quanto de instrutores.
Ensinar direção envolve experiência prática, domínio técnico e capacidade de intervenção rápida em situações de risco. Sem pedais redundantes, o controle do instrutor é limitado. Em uma situação crítica, restam apenas orientações verbais ou o uso do freio de mão.
O novo modelo também coloca as autoescolas em uma posição delicada. Antes, elas eram obrigadas a cumprir uma série de exigências estruturais e pedagógicas definidas pelo Contran, como carga horária mínima, formação específica de instrutores, frota padronizada e aulas supervisionadas. Agora, um instrutor autônomo pode atuar após concluir um curso digital rápido.
A mudança representa uma ruptura clara com o sistema tradicional de formação de condutores no Brasil. Se ela resultará em mais inclusão, mais acidentes ou apenas em um mercado mais informal, isso só será possível avaliar com o tempo e com dados concretos sobre aprovação, reprovação e segurança no trânsito.














