A disputa global por minerais críticos ganhou um novo capítulo em fevereiro de 2026, quando sinais diplomáticos, financeiros e empresariais passaram a indicar que os Estados Unidos passaram a tratar o Brasil como território estratégico em uma corrida silenciosa por terras raras e nióbio, insumos considerados essenciais para a indústria tecnológica, militar e energética do século vinte e um. O movimento ocorre após ações diretas e indiretas em regiões como Venezuela e Groenlândia, que reposicionaram a segurança mineral no centro da política externa norte americana.
Em janeiro, a escalada sobre a Venezuela terminou na prisão de Nicolás Maduro, episódio interpretado por analistas internacionais como parte de um rearranjo mais amplo sobre recursos estratégicos em áreas politicamente instáveis. Pouco antes, declarações públicas do ex presidente Donald Trump voltaram a defender a incorporação da Groenlândia como ativo de interesse direto dos Estados Unidos, citando explicitamente o potencial mineral do território. Estimativas indicam que a ilha concentra até 25 por cento das reservas mundiais de elementos de terras raras, algo em torno de 1,5 milhão de toneladas, além de lítio, grafite, urânio, cobre, níquel, cobalto e petróleo, um conjunto de recursos decisivo para cadeias industriais de alta tecnologia.
No mesmo período, o Brasil passou a aparecer com mais frequência em relatórios estratégicos e decisões de financiamento ligadas à política industrial norte americana. O país reúne até 23 por cento das reservas conhecidas de terras raras do planeta, segundo estudos citados por órgãos oficiais, mas responde por menos de 1 por cento da produção global. Essa diferença entre potencial geológico e presença industrial cria um ambiente propício para investimentos externos em setores considerados críticos, especialmente em um cenário em que a China domina a maior parte da produção e quase todo o refino mundial desses minerais.
A mudança de status não ocorre por meio de bases militares ou acordos ostensivos, mas por contratos, aportes financeiros e participação em empresas chave. Um exemplo é a mineradora Serra Verde, instalada em Goiás, primeira fora da Ásia a produzir terras raras em escala comercial. A empresa recebeu um financiamento de 465 milhões de dólares da Development Finance Corporation, braço financeiro do governo dos Estados Unidos. O aporte permite a participação direta do capital público norte americano em uma estrutura produtiva privada brasileira, com foco explícito em minerais classificados como estratégicos.
A corrida por esses insumos deixou de ser apenas econômica. Elementos utilizados em carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas, smartphones, servidores de dados, radares e armamentos de alta precisão passaram a integrar a agenda de segurança nacional das grandes potências. Projeções de organismos internacionais apontam que a demanda por alguns desses minerais pode crescer até 1.500 por cento até 2050, ritmo muito superior à capacidade atual de extração e refino. Em março de 2025, Donald Trump assinou um decreto para impulsionar a produção doméstica de minérios críticos, mas estudos internos indicam que a geologia norte americana não garante autonomia, ampliando a busca por fontes externas.
Se nas terras raras o Brasil ainda ocupa posição marginal na produção, no nióbio a situação é inversa. O país concentra cerca de 92 por cento da produção mundial do metal, utilizado em ligas de aço de alta resistência aplicadas em infraestrutura pesada, indústria aeroespacial, baterias e sistemas militares avançados, incluindo mísseis hipersônicos. Esse domínio quase monopolista transformou o nióbio em ativo estratégico observado de perto por potências militares, sobretudo em um contexto de tensão tecnológica entre Estados Unidos e China.
Grande parte das jazidas de terras raras e minerais críticos está localizada em regiões ambientalmente sensíveis, como áreas da Amazônia e territórios com presença de povos tradicionais. A pressão por acelerar licenciamentos e flexibilizar regras ambientais tende a crescer à medida que investidores buscam garantir acesso antecipado às cadeias de suprimento. Ao mesmo tempo, a dificuldade histórica do país em avançar no beneficiamento e na agregação de valor mantém o risco de que o Brasil atue apenas como fornecedor de matéria prima em uma disputa definida fora de suas fronteiras.
Enquanto isso, financiamentos, estudos e negociações seguem em andamento. Projetos de mineração avançam em diferentes estágios, e novas rodadas de investimento são analisadas por fundos ligados a governos estrangeiros. O reposicionamento do Brasil como território estratégico ocorre em silêncio, no subsolo e nas planilhas de grandes corporações, em uma corrida que segue aberta e sem desfecho definido.