Abastecer o próprio carro é proibido no Brasil desde o ano 2000, quando a Lei nº 9.956 determinou que a operação de bombas de combustível deveria ser realizada exclusivamente por frentistas. A norma transformou o país em uma exceção em relação a muitos mercados internacionais, onde o autosserviço se tornou padrão.
A justificativa apresentada na época da aprovação da lei foi direta: preservar empregos em um setor que tem grande presença de trabalhadores em postos de combustíveis. O receio era que a automação do abastecimento provocasse demissões em massa.
Passadas mais de duas décadas, a regra continua em vigor e permanece no centro de um debate que envolve mercado, segurança, custo do combustível e liberdade de escolha do consumidor.
A profissão de frentista existe no Brasil desde o início do século XX, quando empresas petrolíferas passaram a vender gasolina e querosene em recipientes metálicos. Com o crescimento da frota, postos de combustíveis se consolidaram como pontos de abastecimento atendidos por funcionários.
Enquanto esse modelo se mantinha no país, outras regiões passaram por mudanças.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o autosserviço começou a ganhar espaço a partir da década de 1960 com a introdução de sistemas que permitiam pagar no caixa e liberar a bomba de combustível.
Nas décadas seguintes, o modelo se consolidou e se tornou predominante.
No Brasil, o caminho foi diferente. Em vez de permitir que o mercado adotasse o autosserviço gradualmente, a legislação nacional proibiu a prática.
O projeto foi aprovado no Congresso e sancionado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Quem defende a proibição sustenta que a presença do frentista vai além da simples operação da bomba de combustível.
Para representantes do setor, o atendimento humano é parte do serviço prestado ao consumidor e ajuda a diferenciar a experiência do cliente nos postos.
Outro argumento recorrente envolve segurança.
O manuseio de combustíveis envolve substâncias inflamáveis e tóxicas, e sindicatos afirmam que o consumidor comum não recebe treinamento para lidar com esses riscos.
Além disso, entidades do setor apontam que a operação dos postos foi estruturada ao longo de décadas considerando a presença de trabalhadores nas bombas.
Segundo estimativas apresentadas no debate público, um frentista leva cerca de dois minutos e quarenta segundos para completar o abastecimento de um tanque vazio.
Em um modelo de autosserviço, esse tempo poderia ser maior, exigindo mudanças na estrutura física dos postos.
Para quem defende a liberação do autosserviço, a decisão deveria ficar nas mãos do consumidor e dos empresários do setor.
Nesse ponto de vista, postos poderiam oferecer diferentes modelos de atendimento.
Esse argumento se baseia na ideia de liberdade de escolha e adaptação às novas tecnologias.
Também há quem sustente que a escassez de mão de obra em determinados locais dificulta a operação completa de postos em alguns horários, especialmente durante fins de semana ou feriados.
No campo político, propostas já foram apresentadas no Congresso para revogar a lei de 2000 e permitir novamente o autosserviço no país.
Um dos argumentos mais populares em defesa da liberação é a possibilidade de reduzir o preço da gasolina.
Entretanto, estudos apontam que o impacto seria limitado.
Um levantamento do Dieese indicou que o custo com frentistas representava cerca de 1,72% do valor total das vendas de combustíveis em 2019.
| Componente do preço | Participação aproximada |
| impostos | entre 32% e 34% |
| produção e refino | entre 35% e 40% |
| mão de obra nos postos | cerca de 1,72% |
Esses números indicam que fatores como tributação, logística e estrutura do mercado têm peso muito maior na formação do preço final do combustível.
Ao longo dos anos, o tema já chegou ao Judiciário e ao Congresso. Em 2022, uma rede de postos em Santa Catarina chegou a obter autorização para implantar autosserviço, mas a decisão foi posteriormente revertida por instância superior.
A discussão hoje se concentra entre dois caminhos principais.
De um lado, a manutenção do modelo atual, que preserva empregos e mantém o atendimento tradicional nos postos. De outro, a possibilidade de liberar o autosserviço total ou parcialmente, permitindo que o consumidor escolha como deseja abastecer.
Enquanto essa disputa continua, a legislação permanece inalterada e mantém o Brasil entre os países que proíbem motoristas de abastecer o próprio veículo, uma regra que atravessa décadas e ainda gera controvérsia entre especialistas, empresários e trabalhadores do setor de combustíveis.