Dólar hoje no Brasil: preço de R$ 5,22 é reflexo da divulgação da ata do Copom

Banco Central sinalizou terça-feira início do corte de juros em março, derrubando o dólar e puxando a alta da Bolsa. A indicação veio na ata do Copom, que manteve a Selic em 15% e reforçou uma postura cautelosa, com efeito imediato no câmbio e no apetite por ações, enquanto investidores recalibram posições à espera do próximo passo.
Publicado por em Economia dia
Dólar hoje no Brasil: preço de R$ 5,22 é reflexo da divulgação da ata do Copom

O mercado não acordou mais confiante, acordou menos defensivo. É diferente. O movimento desta terça-feira deixou isso claro logo cedo, quando o dólar cedeu e a Bolsa ganhou tração sem euforia, reagindo a um sinal que já vinha sendo esperado, mas que só agora ganhou forma escrita.

A Ata do Copom não prometeu nada além do que pode entregar. Manteve a Selic em 15% e, ao mesmo tempo, registrou de forma objetiva que o corte de juros deve começar em março, desde que o cenário siga como projetado. Não há compromisso com ritmo, não há número fechado, não há discurso otimista. Há cautela, e isso importa mais do que parece.

O dólar comercial abriu em queda de 0,43%, a R$ 5,235, depois de ter voltado a R$ 5,25 no pregão anterior. O movimento não apaga o que aconteceu em janeiro, quando a moeda acumulou recuo de 4,4%, a maior queda mensal desde junho do ano passado. Não é um câmbio forte, mas é um câmbio menos pressionado, refletindo a leitura de que o aperto monetário está perto do limite e não será prolongado artificialmente.

A Bolsa reagiu de forma consistente, não espetacular. O Ibovespa subia 1,32% por volta das 10h30, aos 185.204 pontos. Parte desse ganho vem da expectativa de juros menores à frente, parte vem da realocação típica quando o risco de manutenção prolongada de taxas elevadas diminui. Não há fluxo novo evidente, há ajuste de posição.

Os dados da indústria ajudaram a colocar o pano de fundo correto. A produção industrial caiu 1,2% em dezembro frente a novembro, fechando 2025 com alta de 0,6%, bem abaixo dos 3,1% de 2024. O número mostra um setor que sentiu o peso do crédito caro e que dificilmente reage no curto prazo, mesmo com o início do ciclo de cortes. A política monetária chega com atraso, e o próprio Banco Central deixa isso implícito ao reforçar a necessidade de manter a Selic em patamar restritivo por mais tempo.

Nas commodities, o ouro voltou a subir depois da correção forte da semana anterior. O contrato para abril avançava 6,6%, negociado a US$ 4.959, ainda abaixo do pico recente, mas sustentado por um ambiente global mais instável. Já o petróleo operava próximo da estabilidade, com o Brent a US$ 66,57 e o WTI a US$ 62,47, em um mercado que segue atento às negociações envolvendo a oferta russa, sem assumir direção clara.

O ponto central não está no corte em si, mas na forma como ele foi comunicado. A Ata não vendeu alívio fácil nem prometeu recuperação rápida. Apenas sinalizou que o ciclo começa, com cautela, e que a taxa real continuará alta. Para o mercado, isso reduz incerteza, não cria ilusão. E, neste momento, é exatamente isso que sustenta o movimento.

Juro no radar muda a conta do carro novo

O sinal de corte de juros a partir de março não barateia o carro amanhã, mas muda o humor do mercado agora. Montadoras, bancos e concessionárias passam a trabalhar com a expectativa de crédito menos travado, o que destrava decisões que estavam represadas desde que a Selic chegou a 15%. Não é retomada de demanda, é fim de paralisia.

Na prática, o impacto mais direto está no financiamento. Com juros no pico, o carro financiado virou um mau negócio para grande parte do consumidor, empurrando vendas para frotistas, vendas diretas e quem paga à vista. A perspectiva de queda, mesmo gradual, já permite alongar prazos, ajustar campanhas e reabrir negociações que simplesmente não fechavam nos últimos meses.

Para a indústria, o efeito é menos imediato e mais estratégico. Produção, mix e preço não mudam por causa de uma ata, mas planejamento muda. Com crédito menos hostil no horizonte, modelos de entrada voltam a fazer sentido econômico e o risco de estoque parado diminui. O corte de juros não cria demanda por carros, mas devolve previsibilidade, e previsibilidade é o que sustenta decisões grandes em um mercado caro como o automotivo brasileiro.

Pablo Silva
Pablo Silva
Especialista em jornalismo automotivo, analisa carros com olhar técnico e paixão por motores. Produz reportagens exclusivas e detalhadas para o Carro.Blog.Br.