IA pode provocar crise global? Relatório da Citrini Research prevê desemprego em dobro e tombo nas bolsas
Um relatório divulgado no domingo pela consultoria de investimentos Citrini Research colocou a inteligência artificial no centro de um debate que vai além do entusiasmo habitual do setor de tecnologia. O documento descreve um cenário hipotético em que a adoção ampla de agentes de IA supera as expectativas e acaba provocando uma crise global até 2028, com desemprego em alta e forte queda nas bolsas americanas.
Logo no início, os próprios autores avisam que se trata de um exercício de cenário, não de uma previsão fechada. Ainda assim, o texto viralizou entre investidores e profissionais de tecnologia, especialmente por projetar que o desemprego nos Estados Unidos poderia dobrar e que o índice S&P 500 teria uma queda de 38% caso a automação avançasse de forma acelerada e sem freios.
O cenário traçado pela consultoria
A análise parte da hipótese de que agentes de IA seriam adotados em larga escala por empresas de diferentes setores, substituindo tarefas hoje desempenhadas por trabalhadores do setor corporativo. Com menos gente empregada, haveria redução do poder de compra, o que afetaria o consumo, o crescimento econômico e até o mercado imobiliário em áreas nobres das grandes cidades.
Segundo o relatório, segmentos que hoje vivem de intermediar serviços poderiam ser profundamente impactados. Entre os exemplos citados estão:
- Corretores e intermediários de serviços financeiros
- Agências de viagem
- Serviços de contabilidade
- Recrutadores corporativos
A lógica é simples e ao mesmo tempo ousada: se a tecnologia eliminar etapas e automatizar processos complexos, estruturas inteiras podem se tornar menores ou até desnecessárias. É o tipo de hipótese que, no papel, parece eficiente. Na prática, envolve uma série de variáveis difíceis de prever.
As críticas ao modelo
Especialistas em inteligência artificial reagiram rapidamente ao cenário descrito. Um conselheiro ligado à OpenAI e a instituições acadêmicas avaliou que o texto funciona mais como um teste narrativo de estresse do que como uma previsão econômica propriamente dita.
Entre as críticas levantadas está a ideia de que o relatório assume que agentes de IA seriam capazes de executar tarefas complexas e de alto risco sem supervisão humana. Também há questionamentos sobre a simplificação de cargos corporativos, tratados como se se resumisse a rotinas burocráticas e programação repetitiva.
Um colunista de tecnologia lembrou ainda a posição de um pesquisador de Stanford, que considera improvável uma substituição ampla de trabalhadores no curto prazo. Para ele, sistemas automatizados tendem a exigir supervisão e ajustes constantes, além de dependerem de dados passados, o que limita sua capacidade de reagir a contextos novos e imprevisíveis.
Reação imediata do mercado
Mesmo com as ressalvas, o impacto no mercado foi concreto. A Nasdaq registrou queda superior a 1%, e empresas de software lideraram as perdas no pregão seguinte à divulgação do relatório.
Entre as companhias que tiveram recuo nas ações estão:
- Asana
- DocuSign
- Oracle
- Salesforce
- Zscaler
Investidores passaram a considerar o risco de que empresas tradicionais de software possam enfrentar dois desafios simultâneos: clientes pressionados por cortes de custos e a concorrência de soluções internas criadas com ferramentas de IA cada vez mais acessíveis.
Não é a primeira vez que o mercado reage com nervosismo a avanços tecnológicos. No início do mês, ferramentas capazes de gerar código reacenderam a discussão sobre o futuro das empresas que vendem soluções prontas. Se qualquer equipe puder montar seus próprios sistemas com apoio de IA, o modelo de negócios de parte do setor pode precisar de revisão.
Entre o entusiasmo e o exagero
O debate expõe uma tensão recorrente no mundo da tecnologia: o entusiasmo com ganhos de eficiência e a preocupação com efeitos colaterais. A inteligência artificial já mostra capacidade de automatizar tarefas e acelerar processos, mas transformar isso em uma crise global exige uma combinação de fatores que vai além da tecnologia em si.
Há um componente quase irônico no cenário descrito: a ideia de que a IA daria certo demais. É como se a economia estivesse preparada para inovações graduais, mas não para um salto repentino que altere estruturas consolidadas. O próprio relatório admite que trabalha com um cenário extremo.
Entre previsões sombrias e críticas técnicas, o fato é que a discussão saiu do campo acadêmico e ganhou as mesas de negociação de Wall Street. Se a IA vai revolucionar o mercado de trabalho ou apenas reconfigurar funções de forma gradual, ainda é cedo para afirmar. Por enquanto, o alerta serve menos como sentença e mais como convite a olhar para o futuro com um pouco de prudência, e talvez com a dose certa de ceticismo que todo bom investidor aprende a cultivar.














