Chery será a primeira marca chinesa a disputar as 24 Horas de Le Mans contra Toyota e Ferrari

A marca chinesa Chery será a primeira de seu país a disputar as 24 Horas de Le Mans, com o modelo Exeed, em 2026, após fases de qualificação na Ásia e um projeto estratégico.
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A Chery decidiu entrar onde poucas marcas no mundo conseguem chegar, as 24 Horas de Le Mans, e quer fazer isso como protagonista, não como figurante. O plano é claro, ambicioso e já tem prazo, colocar a Exeed no grid da corrida mais respeitada do automobilismo mundial em até cinco anos.

Exeed Exlantix ES é o sedã elétrico premium da Chery que aposta em alto desempenho, tecnologia avançada e design arrojado para elevar o patamar global da marca.
Exeed Exlantix ES é o sedã elétrico premium da Chery que aposta em alto desempenho, tecnologia avançada e design arrojado para elevar o patamar global da marca.

Para entender o peso desse movimento, é preciso ir além do anúncio. Le Mans não é apenas uma corrida. É um teste brutal de engenharia, confiabilidade, estratégia e resistência humana e mecânica. Entrar ali significa aceitar comparação direta com Porsche, Toyota, BMW, Cadillac, Aston Martin e outras marcas que constroem reputação ali há décadas. E é exatamente isso que a Chery decidiu fazer.

O acordo assinado com o Automobile Club de l’Ouest, organizador da prova, estabelece um caminho estruturado e progressivo. Nada de salto no escuro. A estratégia foi desenhada em três fases, todas pensadas para preparar a marca técnica e esportivamente antes da estreia definitiva na França.

A primeira etapa acontece mais perto de casa, revelou o Carnewschina. A Chery vai criar o Exeed Unified Race, um sistema próprio de corridas de resistência dentro da Ásia. A ideia é simples e ao mesmo tempo sofisticada, usar provas reais como laboratório para formar pilotos, engenheiros, equipe de boxes e, principalmente, aprender a pensar como uma equipe de endurance. Le Mans não se vence apenas com potência, mas com consistência, leitura de corrida e decisões corretas ao longo de 24 horas ininterruptas.

Na sequência, vem a entrada oficial no ecossistema Le Mans por meio da Asian Le Mans Series. É ali que a Exeed vai medir forças de verdade, disputando categorias como LMP2, LMP3 e LMGT3. Essas classes funcionam como uma espécie de vestibular da prova francesa. Exigem confiabilidade extrema, integração entre carro e equipe e respeito a regulamentos técnicos rígidos. No caso da LMGT3, há ainda a exigência de produção mínima de carros de rua, o que conecta diretamente o projeto de pista com os modelos vendidos ao público.

Só depois dessa fase de maturação é que a Chery pretende dar o passo mais importante, criar oficialmente a Exeed Le Mans Team e alinhar sua estreia nas 24 Horas de Le Mans. Não por acaso, o acordo com o ACO inclui a construção de um circuito certificado para Le Mans em Wuhu, cidade-sede da Chery. Essa pista não será apenas simbólica. Ela servirá como centro de testes avançado, tanto para carros de corrida quanto para tecnologias aplicadas aos modelos de produção.

A grande pergunta, naturalmente, é sobre o carro. A Chery ainda não revelou qual será a base do projeto, mas o caminho parece apontar para a eletrificação. Hoje, o motor a combustão mais potente desenvolvido internamente pela marca é um 2.0 turbo de cerca de 257 cavalos. Em contrapartida, a empresa já domina sistemas híbridos plug-in capazes de entregar mais de 600 cavalos de potência combinada, o que abre margem para soluções técnicas compatíveis com os regulamentos de Le Mans.

Esse movimento ajuda a entender por que a Exeed foi escolhida para liderar o projeto. Como marca premium do grupo, ela carrega a missão de elevar a imagem da Chery globalmente, e poucas vitrines são tão eficazes quanto Le Mans. Mais do que marketing, trata-se de validação técnica. Sobreviver 24 horas em ritmo extremo diz muito mais sobre um carro do que qualquer campanha publicitária.

O anúncio também tem um valor simbólico forte. A Chery se tornará a primeira montadora chinesa a disputar oficialmente as 24 Horas de Le Mans, algo impensável uma década atrás. Isso reforça uma mudança clara no posicionamento das marcas chinesas, que deixam de focar apenas em volume e preço para disputar engenharia, tecnologia e prestígio.

Dentro desse contexto, Le Mans passa a ser menos um fim e mais um meio. Um meio de acelerar desenvolvimento, testar limites e mostrar ao mundo que a indústria automotiva chinesa está pronta para jogar o jogo mais difícil do automobilismo internacional. Para o leitor atento, o recado é claro, quando uma marca decide enfrentar Le Mans, ela não está apenas entrando numa corrida, está assumindo um novo patamar de ambição.

Alan Corrêa
Alan Correa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.