Você confiaria em usar um carro sem freio hidráulico? Chery lança novo carro que usa sistema inovador de freios
A substituição do freio hidráulico por um sistema totalmente eletrônico deixou de ser especulação técnica e passou a integrar o planejamento industrial da China, que decidiu incorporar o Electronic Mechanical Braking, o EMB, à próxima geração de veículos de passeio. Ao fazer essa escolha, o país não apenas atualiza um componente, mas altera a lógica de funcionamento de um dos sistemas mais tradicionais do automóvel, inserindo a frenagem no centro da arquitetura digital que já domina motor, entretenimento e assistência à condução.
Durante décadas, a dinâmica foi essencialmente mecânica: o motorista pressionava o pedal, o fluido de freio transmitia a força por meio de mangueiras pressurizadas e o atrito nas rodas convertia essa energia em desaceleração. Esse encadeamento físico, que se consolidou como padrão global de segurança, começa a ser desmontado quando o fluido desaparece da equação e dá lugar a atuadores elétricos instalados nas rodas, controlados por software. No EMB, não há circuito hidráulico nem transmissão de pressão; a força de frenagem passa a ser gerada por motores elétricos dedicados, integrados ao sistema eletrônico central do veículo.
A mudança ganhou contorno definitivo em maio de 2025, quando foi publicada a norma obrigatória GB21670-2025, que reconhece oficialmente o sistema de frenagem por transmissão elétrica. Ao estabelecer critérios de redundância, confiabilidade e métodos específicos de validação de segurança, a regulamentação retirou o EMB do campo experimental e o inseriu no cronograma industrial. Com parâmetros técnicos definidos, fornecedores e montadoras passaram a estruturar produção em pequena escala já para 2026, segundo dados divulgados pela plataforma Research and Markets com base no setor automotivo chinês.
A partir daí, o movimento deixou de ser pontual. A Orient-Motion Technology firmou acordos com a Dongfeng Liuzhou Motor e com a divisão Farizon, do grupo Geely, para desenvolver linhas dedicadas ao novo sistema. A Jiongji Electronic Technology concluiu testes de durabilidade e obteve certificação ISO 26262 de segurança funcional para seus sistemas totalmente secos, enquanto a Motion Technology validou produção em massa. A Watson Rally avançou para a fase final de calibração, consolidando um esforço coordenado da cadeia automotiva.
No campo das montadoras, o Exeed EX7, marca ligada à Chery, aparece como o primeiro modelo anunciado com EMB. A família Chery ET Series passou pelos ensaios exigidos pela GB21670-2025 e surge como candidata a versões equipadas com o sistema. A Kaiyi Automobile desenvolve projetos em parceria com a U Power e a Beijing West Industries para integrar soluções com controle eletrônico independente nas quatro rodas, e há menções ao Li Auto L9 Livis como possível futuro candidato, ainda sem confirmação oficial.
O que se desenha é uma integração mais profunda entre frenagem e software. Em plataformas definidas por código, tendência crescente na indústria chinesa, o freio deixa de ser um conjunto isolado de componentes mecânicos e passa a dialogar com sistemas de assistência avançada, controle dinâmico e direção autônoma. A frenagem, nesse contexto, não responde apenas ao pedal, mas também a decisões computacionais em tempo real, ampliando o papel do sistema na dinâmica do veículo.
Esse rearranjo técnico tem peso estratégico. Ao oficializar o EMB como padrão regulatório, a China cria um ambiente favorável para acelerar a substituição do sistema hidráulico, enquanto outros mercados ainda avaliam versões híbridas de brake-by-wire sem padronização equivalente. Se a produção prevista para 2026 confirmar desempenho e confiabilidade no uso cotidiano, o freio hidráulico poderá gradualmente perder espaço, assim como ocorreu com outros componentes que foram superados pela eletrônica embarcada.
A decisão chinesa, portanto, não se limita a uma inovação de engenharia, mas aponta para uma redefinição do automóvel como produto digital. Ao incorporar a frenagem ao núcleo eletrônico do veículo, o país reforça sua estratégia de liderar a transição para arquiteturas automotivas cada vez mais integradas, em que linhas de código passam a ter o mesmo peso que engrenagens e mangueiras tiveram ao longo do século passado.















