Argentina e EUA fecham acordo comercial que amplia exportações e pressiona Congresso argentino
Estados Unidos e Argentina assinaram nesta quinta-feira (5) um acordo comercial que amplia o alcance da relação bilateral, altera o posicionamento externo de Buenos Aires e impõe um teste político imediato ao Congresso argentino, responsável por ratificar um pacto que não admite aprovação parcial e pode entrar em vigor em até 60 dias.
O documento, fechado após meses de negociação e alinhado às diretrizes divulgadas pela Casa Branca no fim de 2025, prevê redução ou eliminação de tarifas sobre mais de 1.600 produtos agrícolas e industriais, com impacto estimado superior a US$ 1 bilhão nas exportações argentinas. O texto inclui ainda estímulos a investimentos em energia e minerais críticos, regras reforçadas de proteção à propriedade intelectual, criação de mecanismos de resolução de controvérsias e programas de cooperação em inovação e tecnologia.
A assinatura marca uma inflexão na política comercial da Argentina, tradicionalmente ancorada no Mercosul e no relacionamento preferencial com o Brasil. O acordo com os Estados Unidos reposiciona o país no Cone Sul e o coloca, segundo fontes do governo argentino, em um grupo restrito de nações com acesso preferencial ao mercado americano, o maior importador do mundo.
O anúncio desta quinta-feira trouxe um dos pontos de maior repercussão do pacto, a ampliação da cota de exportação de carne bovina argentina para os Estados Unidos, que sobe de 20 mil para 100 mil toneladas. A medida afeta diretamente a agroindústria, um dos setores mais beneficiados pelo acordo, ao lado da energia e das manufaturas. Em contrapartida, não houve avanço relevante na eliminação das tarifas sobre aço e alumínio, tema sensível para a indústria pesada argentina.
O texto também estabelece normas mais rígidas de proteção a patentes, marcas e direitos autorais. Essa cláusula atinge setores estratégicos, como tecnologia e farmacêutico, e já provoca resistência interna. A legislação argentina de patentes é apontada como um dos principais obstáculos à aprovação do acordo, uma vez que o Congresso não pode ratificar o pacto de forma fragmentada. A rejeição de um único capítulo derruba todo o entendimento.
Além das tarifas, o acordo dedica um eixo central à atração de investimentos em lítio, gás e energias renováveis. Os Estados Unidos buscam garantir o fornecimento de minerais críticos, considerados estratégicos para cadeias industriais e para a transição energética. A Argentina, por sua vez, aposta na entrada de capital estrangeiro para ampliar infraestrutura e acelerar projetos de exploração, movimento que reacende debates internos sobre soberania dos recursos naturais.
Outro pilar é a criação de um marco de comércio mais transparente, com regras claras e previsibilidade regulatória. O pacto institui mecanismos de supervisão e solução de controvérsias, desenhados para reduzir conflitos e aumentar a confiança de investidores. A cooperação em inovação inclui programas conjuntos de pesquisa e transferência tecnológica em áreas como inteligência artificial, biotecnologia e energias limpas.
Segundo a Forbes, o processo de tramitação no Congresso argentino é tratado como complexo. As exigências regulatórias associadas à propriedade intelectual e aos padrões de qualidade podem elevar custos para empresas locais, sobretudo pequenas e médias. A assimetria econômica entre os dois países também é vista como um risco, com possibilidade de perda de competitividade em segmentos menos preparados para competir com produtos americanos.
Autoridades envolvidas nas negociações afirmam que, se aprovado, o acordo entra em vigor 60 dias após a ratificação pelos dois países. A implementação, no entanto, dependerá de ajustes regulatórios e da capacidade do governo argentino de administrar as resistências políticas e setoriais. O debate legislativo deve se intensificar nas próximas semanas, com audiências e articulações que podem definir o futuro do pacto e o novo papel da Argentina no comércio internacional.














