Estudo internacional aponta que cáries e doença gengival podem aumentar o risco de AVC e eventos cardíacos; Pesquisa acompanhou quase 6 mil adultos por duas décadas.
Problemas aparentemente simples na boca, como cáries e gengivite, podem ter efeitos que vão muito além do sorriso. Uma pesquisa publicada na revista científica Neurology Open Access, ligada à Academia Americana de Neurologia, encontrou associação entre a combinação desses dois problemas e um aumento significativo no risco de acidente vascular cerebral.
O trabalho analisou dados de quase seis mil adultos e sugere que a saúde bucal pode desempenhar um papel mais relevante na prevenção de doenças cardiovasculares do que se imaginava. Embora o estudo não prove relação direta de causa e efeito, os resultados reforçam uma hipótese que vem ganhando espaço na medicina preventiva: a boca pode influenciar processos inflamatórios que afetam todo o organismo.
O que mostrou a pesquisa
Os pesquisadores acompanharam 5.986 adultos, com idade média de 63 anos, que não tinham histórico de AVC no início da análise. Todos passaram por exames odontológicos detalhados para identificar a presença de cáries, doença periodontal ou a combinação dos dois problemas.
A partir dessas avaliações, os participantes foram divididos em três grupos:
- Pessoas com saúde bucal considerada saudável
- Participantes com doença gengival
- Indivíduos com gengivite associada a cáries
Durante cerca de duas décadas, os pesquisadores acompanharam o histórico médico dos participantes por meio de registros clínicos e contatos periódicos.
Os resultados mostraram diferenças relevantes entre os grupos observados.
| Condição bucal | Percentual de AVC durante o estudo |
|---|---|
| Boca saudável | 4% |
| Apenas doença gengival | 7% |
| Gengivite associada a cáries | 10% |
Após ajustes para fatores como idade, índice de massa corporal e tabagismo, a pesquisa indicou que participantes com cáries e doença gengival apresentaram risco 86% maior de AVC em comparação com aqueles com boa saúde bucal.
Já quem tinha apenas doença gengival registrou aumento de 44% no risco.
Ligação com doenças do coração
Além do acidente vascular cerebral, o estudo também avaliou a ocorrência de eventos cardiovasculares graves, como infarto ou doença cardíaca fatal.
Nesse cenário mais amplo, os participantes com cáries associadas à doença periodontal apresentaram risco 36% maior de desenvolver algum desses problemas em comparação com indivíduos com saúde bucal considerada adequada.
Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam a ideia de que infecções crônicas na cavidade oral podem desencadear processos inflamatórios capazes de afetar vasos sanguíneos e órgãos vitais.
Cuidar da saúde bucal não se resume à estética ou ao conforto. Pode ser uma forma de proteger o cérebro e o sistema cardiovascular.
Por que a boca pode afetar o cérebro
Especialistas explicam que existem pelo menos dois caminhos biológicos que podem ligar infecções bucais a problemas cardiovasculares.
- Bactérias da boca podem entrar na corrente sanguínea através da gengiva inflamada
- Esses microrganismos podem se alojar em válvulas cardíacas ou placas de gordura nas artérias
- Infecções crônicas estimulam processos inflamatórios que afetam vasos sanguíneos
Quando a inflamação se espalha pelo organismo, ela pode contribuir para alterações nas paredes das artérias, aumentando o risco de obstruções ou formação de coágulos, fenômenos frequentemente associados a infartos e AVCs.
Dentistas relatam que essa associação entre saúde bucal e doenças sistêmicas já aparece na prática clínica, especialmente em pacientes que apresentam inflamações gengivais graves combinadas com outras condições como hipertensão ou diabetes.
Consultas ao dentista podem reduzir riscos
Outro ponto analisado pelos pesquisadores foi a frequência de visitas ao dentista.
Os participantes que relataram consultas regulares apresentaram indicadores significativamente melhores de saúde bucal.
- 81% menos probabilidade de apresentar simultaneamente cáries e doença gengival
- 29% menos chance de desenvolver doença gengival isolada
A recomendação mais comum entre especialistas é realizar avaliação odontológica pelo menos a cada seis meses, período em que costuma ocorrer acúmulo de tártaro e surgimento de inflamações iniciais.
Em alguns grupos, como fumantes, diabéticos ou pessoas com histórico de doença periodontal, o intervalo pode ser reduzido para três meses, dependendo da avaliação clínica.
Sinais que costumam ser ignorados
Muitos pacientes chegam ao consultório apenas quando os sintomas já estão avançados. Alguns sinais precoces de doença gengival são frequentemente ignorados.
- Sangramento ao escovar os dentes
- Gengiva inchada ou avermelhada
- Feridas persistentes na boca
- Sensação de dentes amolecidos
Especialistas alertam que gengiva saudável não costuma sangrar, e o aparecimento desse sintoma deve ser avaliado por um profissional.
O estudo também destaca algumas limitações, como o fato de que a saúde bucal dos participantes foi analisada apenas no início da pesquisa, sem atualização ao longo das duas décadas seguintes.
Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que os dados sugerem uma ligação relevante entre infecções bucais e doenças cardiovasculares, tema que continua sendo investigado em estudos clínicos ao redor do mundo desde a publicação da análise científica em outubro de 2025.














