O avanço tecnológico dos veículos vem pressionando montadoras e concessionárias a acelerar a formação de profissionais. A Ford decidiu transformar essa necessidade em espetáculo corporativo ao lançar a Competição Nacional de Habilidades Técnicas, em sua segunda edição. A disputa, que começa em formato digital e termina em provas práticas presenciais, coloca à prova não apenas os conhecimentos dos mecânicos, mas também a eficácia do modelo de capacitação da própria empresa.
Na primeira fase, em agosto, 167 técnicos responderam a uma bateria de questões online sobre conceitos veiculares e procedimentos de manutenção. Foi o filtro inicial de um torneio que imita o ambiente competitivo do setor, no qual marcas disputam a confiança do consumidor pelo pós-venda. Os números, no entanto, também chamam atenção: diante de uma rede com cerca de 800 técnicos e chefes de oficina, a participação ainda revela um universo limitado.
O recorte se estreita nas etapas seguintes. Apenas 20 profissionais avançam para provas práticas em que o desafio vai além do conhecimento teórico. Eles precisam demonstrar rapidez e precisão no diagnóstico de falhas simuladas, em um exercício que reproduz a pressão cotidiana das oficinas. Na final, seis finalistas enfrentam problemas reais de reparo, sob observação da empresa, em busca de um pódio simbólico.
O torneio funciona como vitrine de um programa de treinamento que soma 112 cursos e 600 horas de aulas oferecidas pela Ford. Estruturado em três níveis, vai do básico — com conceitos fundamentais — até módulos de alta complexidade, cobrindo eletrônica, alta tensão, motores e transmissões. Os cursos são realizados no Ford Academy, em São Paulo, em formato híbrido, online e presencial.
Apesar da robustez anunciada, o modelo não está livre de questionamentos. Para especialistas do setor, a padronização corporativa, ao mesmo tempo que garante alinhamento técnico, pode reduzir a autonomia das oficinas em soluções criativas diante de falhas recorrentes ou problemas específicos do consumidor brasileiro. A pressão por rapidez e eficiência, destacada pela competição, também expõe um dilema: como equilibrar agilidade e qualidade em reparos que envolvem sistemas cada vez mais complexos.
Outro ponto é a relação com os lançamentos de produtos. A cada novo carro, os técnicos recebem treinamentos adicionais. Isso reforça o vínculo com a marca, mas mantém os profissionais dependentes de atualizações centralizadas. Em um mercado em que veículos híbridos e elétricos começam a se popularizar, a exigência de formação contínua tende a se tornar ainda mais intensa, e a competição parece ser apenas a face mais visível de um desafio estrutural.
Ao transformar a capacitação em evento competitivo, a Ford sinaliza que a disputa por clientes se estende também ao campo do pós-venda. Em tempos de fidelidade volátil, oficinas despreparadas podem significar não apenas perda de receita, mas também erosão da imagem de marca. A CNHT, nesse sentido, funciona tanto como um campeonato interno quanto como estratégia de marketing, evidenciando a fragilidade e a importância do elo mais invisível da cadeia automotiva: o técnico de oficina.
Fonte: Ford.