O setor automotivo brasileiro vive um momento histórico com a inauguração da primeira fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia. O investimento de R$ 5,5 bilhões marca a entrada definitiva da gigante chinesa Build Your Dreams no país, consolidando o Brasil como um polo estratégico para a produção de veículos elétricos e híbridos na América Latina. O evento, realizado nesta quinta-feira (9), reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente global da BYD, Wang Chuanfu, simbolizando o novo ciclo da mobilidade sustentável no país.
Construída do zero em um terreno antes ocupado pela Ford, a planta ocupa uma área impressionante de 4,6 milhões de metros quadrados — o equivalente a 645 campos de futebol. O espaço, erguido em apenas 15 meses, renasce como um dos maiores complexos industriais automotivos da América do Sul. A expectativa é de gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos, fortalecendo a economia local e recuperando o protagonismo industrial da Bahia após a saída da montadora americana.
O projeto é dividido em três unidades principais: produção de carros elétricos e híbridos, montagem de caminhões e chassis de ônibus, e um centro de processamento de insumos para baterias, com foco em lítio e ferro fosfato. Essa integração vertical coloca o Brasil em um novo patamar tecnológico, com domínio de etapas essenciais da cadeia de produção de veículos eletrificados — algo inédito no país até agora.
Para dar início à produção, o primeiro modelo escolhido foi o BYD Dolphin Mini, atualmente o carro elétrico mais vendido do Brasil, com mais de 34 mil unidades comercializadas. A versão nacional do hatch compacto representa o início da linha de montagem local e abre caminho para outros dois modelos: o híbrido Song Pro e o sedã King, ambos equipados com a avançada tecnologia DM-i, que combina motor elétrico e combustão de forma inteligente para otimizar consumo e desempenho.
A capacidade inicial da fábrica é de 150 mil veículos por ano, com previsão de dobrar para 300 mil na segunda fase de expansão. O processo começa em formato SKD (Semi Knocked-Down), no qual os carros chegam parcialmente montados, mas evoluirá para a produção integral no país, com estampagem, soldagem e pintura próprias. Essa transição prevê um aumento gradual do conteúdo nacional e o fortalecimento de fornecedores locais, estimulando toda a cadeia produtiva baiana.
Entre as inovações mais aguardadas está o desenvolvimento de um motor híbrido flex 1.5 DM-i, resultado da colaboração entre engenheiros chineses e brasileiros. O propulsor é projetado para rodar tanto com gasolina quanto com etanol, unindo eficiência energética, baixo consumo e potência elétrica — uma combinação que pode transformar a matriz automotiva nacional e servir de vitrine global da tecnologia verde tropicalizada.
Apesar da empolgação com a nova era industrial, o projeto também enfrentou polêmicas. Em dezembro de 2024, mais de 160 trabalhadores chineses foram resgatados de situação análoga à escravidão durante as obras da fábrica. A BYD rompeu o contrato com a empreiteira responsável, Jinjiang Construction Brazil, e reforçou seus compromissos com a legislação trabalhista brasileira. O episódio expôs os desafios éticos e estruturais da rápida expansão industrial, mas também mostrou a importância da transparência e do controle sobre cadeias produtivas complexas.
A instalação da BYD na Bahia traz benefícios diretos à região, como programas de capacitação profissional e incentivos fiscais que impulsionam o mercado local. O governo estadual oferece isenção de IPVA para veículos elétricos de até R$ 300 mil e alíquota reduzida de 2,5% para modelos acima desse valor. A empresa também firmou compromisso de criar um centro de pesquisa e desenvolvimento em Salvador, destinado a aprimorar tecnologias de eletrificação e soluções para o uso de etanol em motores híbridos.
Com essa inauguração, o Brasil se posiciona de forma inédita na corrida global da eletrificação. A BYD aposta em um modelo de produção que une inovação, sustentabilidade e inclusão econômica — uma combinação que pode redefinir o futuro da indústria automotiva nacional.
Fonte: G1.