O Nissan Kicks nunca foi exatamente um carro que despertasse paixões arrebatadoras, mas acabou se tornando um dos SUVs mais vendidos do Brasil. Agora, a história do modelo entra numa fase estranha: a chegada da nova geração, chamada de Kicks 2026, convive com a versão antiga, rebatizada de Kicks Play. Em vez de encerrar a produção, a Nissan resolveu empilhar versões e dar sobrevida ao projeto de quase uma década.
O Nissan Kicks 2026 vem para mostrar que a Nissan ainda quer espaço entre os SUVs médios e compactos. Plataforma nova, motor 1.0 turbo, tecnologia embarcada, mais conectividade e um design que tenta se alinhar à estética global da marca. O problema é que ele não substitui de imediato o Kicks de sempre, que agora atende pelo nome de Play, como se fosse um spin-off alternativo, meio deslocado, mas funcional.
O Kicks Play não é outra coisa senão o Kicks antigo para quem quer a versão tradicional do SUV, asinal de contas o novo tem um design bem mais ousado. O carro continua com a mesma base de sempre, dimensões compactas e o mesmo perfil de SUV urbano que já rodava por aí desde 2016. A diferença é que agora ele serve como opção de entrada, posicionado para quem não quer ou não pode pagar a etiqueta mais salgada do modelo renovado.
O curioso é que a Nissan não parece ter vergonha dessa sobreposição. Em vez de tirar o antigo de linha, a marca aposta numa estratégia de “dois mundos”. Quem olha para o showroom encontra o novo Kicks, cheio de telas e assistentes eletrônicos, ao lado de um Kicks Play, praticamente congelado no tempo. É uma forma de sugar até a última gota de relevância de um projeto que já foi amortizado há anos.
O mercado brasileiro tem histórico de aceitar esse tipo de jogo. Modelos antigos sobrevivem como se fossem “novos populares”, renomeados, reembalados e oferecidos como soluções racionais. O Kicks Play se encaixa nesse padrão: não é aspiracional, mas é acessível. Já o Kicks 2026 tenta empurrar a marca para cima, brigando com os rivais turbo mais recentes.
A jogada tem impacto também no branding. Ao colocar um sufixo como Play, a Nissan tenta diferenciar as gerações sem matar o nome Kicks. Afinal, é esse emblema que acumulou anos de publicidade, presença de frota e popularidade nas ruas. A marca entende que a extinção pura e simples poderia abrir espaço para concorrentes que surfam forte nesse segmento.
Para quem acompanha a indústria, a movimentação soa como uma mistura de pragmatismo e hesitação. Pragmatismo porque a fábrica de Resende não precisa parar ou adaptar tudo de imediato; hesitação porque a Nissan ainda não decidiu se o Kicks antigo terá data de validade próxima. O fato é que os dois vão conviver por algum tempo, e o consumidor vai ser bombardeado com a dualidade.
Do ponto de vista do consumidor, a confusão pode ser até conveniente. Quem busca tecnologia vai olhar para o novo. Quem precisa de preço menor, vai cair no Play. A Nissan entrega as duas pontas sem abrir mão do nome que já está consolidado. Mas essa convivência também expõe o risco de canibalização interna, com o Kicks Play roubando compradores que poderiam migrar para o Kicks 2026.
No fundo, o que está em jogo é a transição de gerações num mercado cada vez mais competitivo. O Kicks já foi confortável na liderança entre os SUVs compactos, mas hoje precisa lidar com rivais turbinados, bem equipados e com redes de concessionárias mais agressivas. Manter duas gerações pode ser uma forma de segurar participação, ainda que às custas de uma certa esquizofrenia de produto.
Se o Kicks vai “sair de linha”? Não exatamente. Ele está mais para uma metamorfose em câmera lenta. O Kicks Play representa o velho travestido de novo, enquanto o Kicks 2026 encarna o futuro que a Nissan gostaria de vender em larga escala. No fim, o consumidor brasileiro é quem vai decidir se compra a nostalgia reciclada ou a promessa de modernidade.