O mercado de trabalho brasileiro passou por uma transformação silenciosa e profunda nos últimos dez anos. O avanço das plataformas digitais como Uber, 99, iFood e outras modificou não apenas a forma de gerar renda, mas também indicadores centrais da economia, segundo o Banco Central. O relatório mais recente da instituição mostra que o número de trabalhadores por aplicativos subiu 170% em uma década, passando de 770 mil para 2,1 milhões, um salto que já representa 2,1% da população ocupada.
Os dados apontam que a expansão foi puxada inicialmente pelos serviços de transporte de passageiros, sobretudo entre 2015 e 2017, quando o modelo de negócios ganhou força no Brasil. A partir de 2017, o protagonismo passou para as entregas em domicílio, impulsionadas por mudanças de comportamento do consumidor e pela disseminação de aplicativos de delivery. Essa dinâmica ajudou a consolidar os aplicativos como parte estável da engrenagem laboral.
A análise do Banco Central evidencia que esse crescimento não se limita a números absolutos. O trabalho em plataformas teve impacto direto sobre indicadores estruturais: entre 2015 e o segundo trimestre de 2025, foi responsável por adicionar até 0,8 ponto percentual ao nível de ocupação. Além disso, elevou a taxa de participação da força de trabalho em até 0,6 ponto percentual e reduziu a taxa de desocupação em até 0,6 ponto percentual, conforme os dois exercícios estatísticos apresentados pelo estudo.
Mesmo com crescimento extraordinário, a fatia dos trabalhadores de aplicativos ainda é relativamente pequena no conjunto do mercado. Em 2015, representavam 0,8% da população ocupada; em 2025, chegam a 2,1%. Em termos da população em idade de trabalhar, a participação subiu de 0,5% para 1,2%. Esse avanço, embora limitado em proporção, contribuiu de forma decisiva para o aquecimento do mercado de trabalho brasileiro.
Outro ponto ressaltado pelo Banco Central é a mobilidade desses profissionais. A facilidade de transitar entre ocupações, aliada ao prêmio salarial muitas vezes associado à troca de atividade, ajuda a explicar por que o emprego se manteve aquecido mesmo diante de incertezas econômicas. Essa característica confere maior resiliência ao mercado e amplia a capacidade de absorver mão de obra em períodos de mudança.
A conjuntura recente mostra que a presença dos trabalhadores de aplicativos coincidiu com um cenário de pleno emprego no Brasil, marcado pela informalidade em baixa e pela elevação da renda média. A autoridade monetária observa que esses fatores devem ser considerados no desenho da política econômica, inclusive na definição da taxa de juros, já que influenciam diretamente a dinâmica de consumo e oferta de trabalho.
Economistas destacam que a expansão dessa modalidade é um dos elementos que explicam a atividade econômica acima das expectativas. O detalhamento fornecido pelo Banco Central reforça que o mercado brasileiro incorporou os aplicativos como componente estrutural, sinalizando que essa transformação não é conjuntural, mas parte do novo modelo de ocupação.
Fonte: Agenciabrasil e Exame.