Morre Niède Guidon, arqueóloga que transformou a pré-história e o sertão do Piauí
Em um pequeno município do sertão piauiense, a arqueologia mundial perdeu uma de suas maiores referências: Niède Guidon. Moradora de São Raimundo Nonato, ela dedicou sua vida à Serra da Capivara e às teorias que mudaram a história do povoamento das Américas. Com coragem e visão, ela fundou instituições, empoderou mulheres locais e deixou um legado científico, cultural e social que ultrapassa fronteiras. Sua morte encerra um ciclo, mas seu impacto continua vivo na memória brasileira e internacional.
Pontos Principais:
- Niède Guidon morreu aos 92 anos em São Raimundo Nonato, onde dedicou sua vida à arqueologia.
- Ela propôs que o povoamento das Américas ocorreu muito antes do que a teoria clássica sugeria.
- Fundou a FUMDHAM e liderou o reconhecimento internacional da Serra da Capivara.
- Seu trabalho promoveu inclusão social, empoderamento feminino e conservação ambiental no sertão.
Trajetória e formação
Niède Guidon nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1933. Graduou-se em História Natural pela USP em 1959 e concluiu seu doutorado em Pré-História pela Universidade de Paris, em 1975. Com dupla nacionalidade, franco-brasileira, ela iniciou sua atuação no Museu Paulista e aprofundou seus estudos em instituições francesas de prestígio, como o Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).

Seu interesse pelas pinturas rupestres do Piauí surgiu ainda nos anos 1960. A partir disso, começou a visitar o sertão piauiense com regularidade, estabelecendo-se em São Raimundo Nonato. Lá, organizou expedições, escavações e construiu uma base sólida para transformar a região em referência mundial em arqueologia.
Ao longo das décadas, dedicou-se à institucionalização das pesquisas, fundando a FUMDHAM, idealizando o Parque Nacional da Serra da Capivara e impulsionando a criação de infraestrutura científica e educacional no interior do Piauí.
Desafios às teorias sobre o povoamento das Américas
A teoria predominante sobre o povoamento das Américas sustentava que os primeiros seres humanos teriam cruzado o Estreito de Bering, vindos da Ásia, há cerca de 13 mil anos. As escavações coordenadas por Niède Guidon apresentaram vestígios arqueológicos com datas estimadas entre 60 mil e 100 mil anos, contrariando a narrativa tradicional.
Ferramentas de pedra e restos de fogueiras analisadas por sua equipe indicaram que grupos humanos poderiam ter chegado ao continente por rotas alternativas, talvez via Atlântico, a partir da África. Essa hipótese gerou debates acalorados na comunidade científica, com reconhecimento e resistência internacional.
O impacto de suas pesquisas consolidou o Brasil como um dos centros mais relevantes para a arqueologia pré-histórica americana. Mesmo sem consenso, os dados levantados ampliaram o escopo de estudos sobre a diversidade de ocupações humanas nas Américas.
FUMDHAM e o desenvolvimento da Serra da Capivara
Niède Guidon foi responsável direta pela criação e fortalecimento da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), que se tornou o eixo central da preservação e pesquisa na Serra da Capivara. A fundação coordenou estudos científicos, capacitação de moradores e atividades de conservação ambiental.
O Parque Nacional da Serra da Capivara, estabelecido em 1979 com apoio de Guidon, abriga mais de mil sítios arqueológicos e foi declarado Patrimônio Mundial pela Unesco em 1991. Com isso, a região se tornou centro de visitação e objeto de cooperação acadêmica com instituições nacionais e internacionais.
A infraestrutura do parque, as trilhas organizadas, os centros de visitantes e os programas de formação refletem uma proposta de integração entre ciência, turismo e desenvolvimento sustentável.
Impacto social, educação e preservação ambiental
O trabalho de Niède Guidon ultrapassou os limites da pesquisa. Ela implementou projetos sociais e educacionais voltados para a população local, especialmente mulheres. A maioria das equipes da FUMDHAM e do parque foi composta por mulheres capacitadas para atuar em conservação, turismo e pesquisa.
Em parceria com universidades como a Univasf, ela contribuiu para a criação de cursos de arqueologia no sertão, garantindo a formação de novos profissionais da região. A atuação integrada promoveu inclusão social, educação técnica e geração de renda.
Na área ambiental, Guidon alertou sobre os riscos à caatinga e liderou ações contra queimadas e exploração irregular da fauna e flora locais. Em 2024, uma nova espécie de ave foi batizada com seu nome em reconhecimento à sua contribuição para a conservação.
Reconhecimento institucional e repercussão da morte
Niède Guidon foi agraciada com prêmios de destaque, incluindo o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, o Prêmio Príncipe Klaus (Holanda), o Green Prize (Paliber) e a Légion d’Honneur (França). Também foi Doutora Honoris Causa por universidades brasileiras e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Sua morte, em 4 de junho de 2025, em São Raimundo Nonato, gerou repercussão nacional. O governo do Piauí decretou luto oficial de três dias. Instituições acadêmicas, museus e organizações culturais publicaram homenagens destacando sua contribuição científica e social.
A escritora Adriana Abujamra, autora de uma biografia sobre Guidon, a definiu como uma figura transformadora, cuja atuação redefiniu os papéis da ciência no interior do Brasil.
Legado e continuidade
O legado de Niède Guidon se reflete na permanência das instituições que fundou e nos projetos que estruturou. A FUMDHAM e os cursos universitários da Univasf garantem a continuidade das pesquisas. A Serra da Capivara segue como ponto estratégico de arqueologia, cultura e turismo sustentável.
O modelo implantado por ela é exemplo de como ciência, desenvolvimento regional e preservação podem atuar em conjunto. A abordagem integrada de Guidon segue inspirando gestores ambientais, cientistas e educadores em outras regiões do Brasil e do mundo.
Entre os desafios, permanecem a necessidade de recursos permanentes para conservação do parque e o enfrentamento de ameaças ambientais. A trajetória de Niède Guidon é agora responsabilidade coletiva de quem dá continuidade ao seu trabalho.
Com informações de Agencia Brasil.



































