Caroline Dias: brasileira detida nos EUA por 16 dias enfim se pronuncia

Detida após uma abordagem policial controversa no Colorado, Caroline Dias Gonçalves passou 16 dias presa em um centro de imigração dos EUA. Sem antecedentes criminais, a estudante brasileira denunciou a forma como foi tratada ao ser identificada como imigrante, relatando discriminação por não falar inglês no início da detenção. A repercussão do caso levou à investigação do policial envolvido e trouxe à tona o endurecimento da política migratória sob o governo Trump.
Publicado por em Mundo dia

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A prisão da estudante brasileira Caroline Dias Gonçalves nos Estados Unidos gerou indignação e abriu um debate sobre discriminação linguística, cooperação indevida entre forças policiais e a política migratória norte-americana sob o governo de Donald Trump. A jovem de 19 anos, que vive no país desde os sete anos, ficou presa por 16 dias após ser abordada no Colorado. O caso envolveu suspeitas de abuso de autoridade, uso indevido de grupos de comunicação entre policiais e tratamento desigual com base no idioma falado pelos imigrantes.

Pontos Principais:

  • Caroline foi abordada por um policial estadual e, depois, presa pelo ICE.
  • Ela denunciou discriminação com base no idioma dentro do centro de detenção.
  • O policial que repassou seus dados foi afastado e está sob investigação.
  • Mesmo com ordem judicial, ela só foi solta mais de 36 horas depois da decisão.
  • A jovem vive nos EUA desde os 7 anos e segue aguardando decisão sobre asilo.

Caroline viajava de carro do estado de Utah para o Colorado, quando foi parada por um policial que alegou direção imprudente. Apesar de ser liberada com uma advertência, minutos depois foi interceptada por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA). A jovem foi detida e levada a um centro federal para imigrantes, onde permaneceu por mais de duas semanas em condições que ela descreveu como degradantes. A prisão aconteceu mesmo sem qualquer antecedente criminal, evidenciando o endurecimento do controle migratório.

Caroline foi parada por um policial no Colorado e liberada. Minutos depois, acabou detida pelo ICE após ter seus dados compartilhados de forma irregular.
Caroline foi parada por um policial no Colorado e liberada. Minutos depois, acabou detida pelo ICE após ter seus dados compartilhados de forma irregular.

Ao ser libertada, Caroline denunciou o tratamento diferenciado dado a imigrantes com base em seu domínio da língua inglesa. Segundo ela, a forma como foi tratada melhorou consideravelmente após os agentes perceberem que falava inglês fluentemente. O caso resultou no afastamento administrativo do policial que a abordou, gerou investigações internas e trouxe à tona falhas graves na interação entre autoridades locais e federais nos Estados Unidos.

A abordagem policial e o envolvimento do ICE

Tudo começou com uma blitz rotineira conduzida pelo policial Alexander Zwinck, que alegou que Caroline dirigia muito próxima de um caminhão. Ela foi advertida e liberada, mas informações sobre sua nacionalidade e possível status migratório foram supostamente compartilhadas por Zwinck em um grupo no aplicativo Signal, utilizado por forças policiais locais. Essa ação resultou, pouco depois, na detenção pela imigração.

A legislação do Colorado proíbe explicitamente que policiais estaduais verifiquem o status migratório de cidadãos durante abordagens de trânsito. A atitude do agente, portanto, gerou questionamentos legais. O próprio Gabinete do Xerife do Condado de Mesa informou que removeu seus integrantes do grupo de mensagens após constatar o desvio de finalidade.

A detenção foi executada pelo ICE com base na informação repassada de forma informal. A operação aconteceu mesmo sem qualquer ameaça à segurança pública e sem antecedentes criminais, contrariando a justificativa usual de que as ações do ICE são voltadas apenas a criminosos ou indivíduos perigosos.

Caroline foi encaminhada a um centro de detenção em Aurora, Colorado, onde ficou mais de duas semanas sob custódia federal. As imagens da câmera corporal do policial estadual foram divulgadas publicamente como parte da investigação, e mostram questionamentos sobre seu local de nascimento, apesar de ela não apresentar sotaque nem resistência à abordagem.

As denúncias de tratamento desigual e as condições no centro de detenção

Durante seu período de detenção, a jovem brasileira relatou ter enfrentado alimentação precária e tratamento desumano. Ela descreveu que os alimentos vinham encharcados, inclusive o pão, e que o ambiente era hostil principalmente para quem não dominava o idioma inglês. Ao se comunicar fluentemente em inglês, Caroline percebeu uma mudança drástica no comportamento dos agentes, o que reforça a suspeita de discriminação.

A brasileira afirmou que se sentia sozinha e com medo durante os dias em que esteve presa. As diferenças de tratamento baseadas no idioma causaram desconforto não só pela injustiça, mas também pelo impacto psicológico de se ver isolada, mesmo sendo parte da sociedade norte-americana desde a infância.

Ela contou ainda que um dos agentes do ICE chegou a pedir desculpas, dizendo que “estava de mãos atadas” diante da política vigente. Esse pedido de desculpas, embora simbólico, levou Caroline a declarar publicamente que perdoava o agente, pois acreditava que as decisões individuais poderiam ser melhores se as pessoas tivessem opções reais de escolha.

O sistema de detenção em números e contexto

No início de junho, mais de 51 mil imigrantes estavam detidos pelo ICE — o maior número registrado desde 2019. A maioria, como Caroline, não possui antecedentes criminais, o que levanta dúvidas sobre os critérios adotados nas operações. Segundo a brasileira, mais de 1.300 pessoas permanecem detidas na mesma unidade em Aurora.

Reação oficial e embate entre versões

Em resposta às críticas feitas por Caroline, o Departamento de Segurança Interna (DHS), ao qual o ICE é subordinado, negou veementemente qualquer tipo de tratamento diferenciado. A secretária adjunta de Assuntos Públicos classificou as denúncias como falsas e acusou os críticos de estarem “demonizando” agentes da lei. A resposta também mencionou que o ICE é auditado regularmente e opera dentro dos padrões nacionais de detenção.

O advogado de Caroline, Jonathan Hyman, rebateu a declaração e apontou que a linguagem usada pela autoridade era “retórica política e vazia”. Segundo ele, é preciso mais transparência e honestidade nas ações do ICE e dos órgãos que o fiscalizam. Hyman também defendeu que o uso de câmeras corporais fosse expandido para os agentes de imigração, que muitas vezes atuam mascarados, o que dificulta a fiscalização externa.

As contradições entre as alegações do governo e o relato da estudante revelam uma crise de confiança nos procedimentos adotados pelo ICE. Para Caroline, a prioridade deveria ser garantir tratamento humano e imparcial a todos, independentemente da língua ou origem.

  • Negativa oficial de tratamento discriminatório pelo DHS
  • Afirmações de Caroline sobre tratamento melhor após falar inglês
  • Pedido de desculpas de um agente do ICE durante a detenção
  • Críticas ao uso de máscaras por agentes em operações

Situação atual e perspectivas para o futuro

Caroline foi libertada após mais de 36 horas da audiência judicial que autorizou sua soltura, em um processo marcado por lentidão e burocracia. Após sua saída do centro de detenção, amigos e familiares organizaram uma campanha de arrecadação de fundos para cobrir os custos jurídicos e futuros gastos com sua defesa contra uma possível deportação.

O policial que iniciou a abordagem, Alexander Zwinck, foi colocado em licença administrativa enquanto prosseguem as investigações sobre a legalidade de sua conduta e a violação das regras do estado do Colorado. O uso do aplicativo de mensagens por forças policiais para assuntos imigratórios também está sendo examinado internamente.

Caroline segue aguardando uma decisão sobre o pedido de asilo feito pela sua família há três anos. Ela continua seus estudos com o apoio de organizações de imigrantes e tem se tornado símbolo de resistência entre estudantes e ativistas que defendem uma reforma humanitária na política migratória dos EUA.

O desfecho jurídico de seu caso ainda é incerto, mas a mobilização em torno da jovem e a visibilidade do episódio acendem um alerta para as práticas do ICE e o tratamento dado a imigrantes sem documentação criminal. A pressão para mudanças concretas no sistema tende a crescer nos próximos meses.

Fonte: G1 e Bbc.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.