Conheça a Supercana de Eike Batista que promete revolucionar o etanol com triplo de rendimento por hectare; projeto deve chegar até o mercado de aviação sustentável e plástico biodegradável

De uma parceria iniciada há anos com um agrônomo especialista em cana, Eike Batista tenta reerguer seu império com a supercana: uma variedade que promete produzir até três vezes mais etanol e gerar bagaço suficiente para plásticos biodegradáveis e combustível de aviação. Apesar do ceticismo do setor e do histórico de promessas frustradas, ele aposta em novas máquinas, tecnologias e usinas integradas para provar que dessa vez o resultado será diferente.
Publicado por em Negócios dia

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O império X, que marcou presença no auge da economia brasileira na década de 2000, volta a ser pauta com uma nova investida de Eike Batista. Após anos de silêncio e embates judiciais, o empresário reaparece com uma promessa: a “supercana”, uma variedade de cana-de-açúcar que, segundo ele, oferece produtividade superior à convencional e pode servir de base para biocombustíveis e embalagens sustentáveis.

Pontos Principais:

  • Eike Batista volta aos negócios com aposta em cana mais produtiva.
  • Projeto visa produzir SAF e plástico biodegradável a partir do bagaço.
  • Setor canavieiro vê a proposta com ceticismo devido a falhas passadas.
  • Supercana é resultado de décadas de cruzamentos genéticos convencionais.
  • Plano prevê fábricas integradas e 70 mil hectares plantados até 2031.

A proposta surge com uma abordagem que tenta se distanciar da queima da biomassa, dando ênfase ao uso do bagaço na fabricação de plástico biodegradável e na produção de combustível sustentável para aviação (SAF). O anúncio foi feito nas redes sociais, onde Eike afirmou ter garantido um investimento de US$ 500 milhões, prometendo transformar novamente a paisagem industrial brasileira.

Após anos longe dos holofotes, Eike Batista anuncia seu retorno com um projeto ousado: a supercana, variedade que promete mais etanol e bagaço por hectare que a cana tradicional - Imagem gerada por IA.
Após anos longe dos holofotes, Eike Batista anuncia seu retorno com um projeto ousado: a supercana, variedade que promete mais etanol e bagaço por hectare que a cana tradicional – Imagem gerada por IA.

Entre reações mistas e ceticismo do setor, Eike tenta defender a viabilidade técnica e econômica do novo projeto. A iniciativa, que conta com colaboração do agrônomo Sizuo Matsuoka, renova antigas pesquisas iniciadas ainda no começo dos anos 2000, que tiveram trajetória marcada por obstáculos técnicos e comerciais.

Retorno ao mercado com nova estratégia

Eike Batista compartilhou seu retorno ao mundo dos negócios por meio de uma publicação no X, onde fez referência ao investimento bilionário e mencionou diretamente Elon Musk. O empresário afirma que o projeto da supercana tem potencial para suprir demandas internacionais, como da companhia aérea Emirates, com SAF derivado de etanol extraído da nova variedade.

A proposta não é apenas agrícola. A partir de um cruzamento de germoplasmas originários de países como Estados Unidos, França e Barbados, a planta foi desenvolvida com foco no aumento da produção de bagaço, estimado entre 7 a 12 vezes mais que a cana tradicional, e no etanol, com rendimento de até três vezes superior por hectare.

O projeto piloto será implantado no norte do Estado do Rio de Janeiro, com início previsto para 2025. A área inicial de 50 hectares será cultivada próxima ao porto do Açu, onde também serão erguidas três fábricas responsáveis pelo processamento da matéria-prima. A produção de embalagens está prevista para 2026, enquanto o combustível de aviação deve começar a ser fabricado em 2028.

Histórico do projeto e seus envolvidos

O agrônomo Sizuo Matsuoka, que lidera a pesquisa da supercana, tem longa trajetória na área. Ele iniciou seus estudos em 1968 e participou da fundação da CanaVialis, voltada ao melhoramento genético da cana. O foco de seu trabalho sempre foi a variedade voltada para biomassa, posteriormente conhecida no setor como “cana-energia”.

A iniciativa da Vignis, criada por Matsuoka após sair da CanaVialis, operou entre 2011 e 2017, mas entrou em recuperação judicial. Na época, a principal justificativa para o insucesso foi a crise financeira da Odebrecht, um dos maiores clientes da empresa. Segundo Eike, essa falência teria interrompido um projeto que poderia ter sido bem-sucedido caso tivesse continuidade.

Apesar dos desafios enfrentados por empresas como a GranBio e da dificuldade técnica em processar a cana com alto teor de celulose, Eike afirma que o novo projeto prevê a criação de maquinário específico, mais robusto e dimensionado para lidar com a nova variedade. Ele também menciona que a produção em escala poderá compensar os custos de adaptação industrial.

Desconfiança no setor canavieiro

Setores tradicionais da indústria de açúcar e etanol reagiram com cautela ao anúncio. Especialistas e empresários como Rubens Ometto, da Cosan, destacaram que projetos similares já foram testados e abandonados por dificuldades de processamento e viabilidade econômica. Entre os problemas apontados, estão o baixo poder calorífico do bagaço em comparação à lenha e a dureza excessiva da planta, o que compromete seu uso nas moendas tradicionais.

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a Embrapa, dois dos principais centros de pesquisa do país, não têm atualmente linhas de pesquisa ativas voltadas à cana-energia. Segundo especialistas, uma das razões é o custo logístico envolvido no transporte de grandes volumes de bagaço, que tende a inviabilizar economicamente o uso dessa biomassa em usinas afastadas da plantação.

Outros desafios incluem a necessidade de tecnologias específicas para processar a celulose e convertê-la em etanol ou outros compostos químicos. O caso da GranBio é citado como exemplo de tentativa frustrada de adaptar maquinário destinado a madeira para processar cana-energia.

Modelo de negócios e perspectivas

O projeto da supercana está sendo desenvolvido por meio da empresa BRX, fundada por Eike Batista, e que tem como base a pesquisa conduzida por Matsuoka. Diferentemente de outros projetos de biomassa, a proposta atual não prevê a queima do bagaço, mas sim sua conversão em produtos com valor agregado, como SAF e plásticos biodegradáveis.

Segundo o empresário, o modelo será baseado em usinas integradas ao local de produção da cana, reduzindo custos logísticos. Ele ainda afirma que cooperativas demonstraram interesse em aderir ao projeto, o que pode levar à expansão das áreas cultivadas. A meta é alcançar 70 mil hectares até 2031.

Apesar das críticas e dúvidas, Eike mantém o discurso de que o projeto está ancorado em bases técnicas sólidas e que a resposta virá com o tempo. Ao fim da entrevista à BBC News Brasil, reforçou que não se trata de uma jogada de marketing ou retorno oportunista, mas sim de uma nova aposta de longo prazo.

Reações e histórico judicial

O histórico de fracassos do império X pesa contra a receptividade da nova empreitada. Eike Batista foi preso em 2017 e 2019, fechou acordo de delação em 2020 e foi condenado em 2021 por crimes contra o mercado de capitais. Ele ainda responde a cinco ações penais e parte de seu patrimônio segue bloqueada.

O colapso de empresas como a OGX, que teve suas reservas de petróleo amplamente superestimadas, contribuiu para o ceticismo do mercado. Ainda assim, o empresário se defende dizendo que os erros foram consequência de má gestão executiva e da falta de tempo para reverter os problemas, ao contrário do que acontece em mercados mais tolerantes ao risco, como o dos Estados Unidos.

Ele também afirma que a nova proposta foi estruturada com mais cautela e que o desenvolvimento tecnológico atual permitirá que se evitem os erros do passado. Mesmo assim, a imagem do empresário continua marcada por promessas não cumpridas, o que aumenta o escrutínio em torno de qualquer novo anúncio.

Próximos passos

O sucesso ou fracasso do projeto da supercana depende da capacidade da equipe em comprovar a produtividade da nova variedade e da viabilidade do modelo de negócios proposto. A complexidade técnica do processamento e a resistência do setor não serão obstáculos simples.

A proposta de produzir embalagens e combustível sustentável pode responder a demandas de mercado global, sobretudo em países que buscam alternativas ao petróleo. No entanto, a competitividade da supercana ainda precisa ser demonstrada, inclusive em termos logísticos, tecnológicos e econômicos.

Até 2031, a meta de expansão para 70 mil hectares e três fábricas em funcionamento será o principal indicador de avanço. Se alcançado, o projeto poderá marcar uma nova fase na história do empresário e no setor energético brasileiro. Se falhar, será mais um capítulo na longa trajetória de promessas de Eike Batista.

Fonte: G1, Terra e InfoMoney.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.