Jaguar demite Gerry McGovern, criador dos Evoque e Velar, após fracasso na reestilização da marca

McGovern deixou a Jaguar após a rejeição ao Type 00, conceito que inauguraria a nova fase elétrica da marca, e sua saída expõe o fracasso da reestilização e a crise interna que ela provocou.
Publicado por em Jaguar e Negócios dia

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A saída de Gerry McGovern caiu como uma bomba em um momento em que a Jaguar tenta reinventar a própria pele. A marca quer abandonar tudo o que a moldou por décadas e renascer como um símbolo elétrico, luxuoso e provocador. Só que, bem no meio dessa travessia, quem imaginou essa nova Jaguar decidiu pular do barco. Para uma empresa que ainda tenta entender a própria identidade, perder seu maior arquiteto visual não é só um tropeço, é quase um capítulo vergonhoso dessa metamorfose tensa.

A saída de McGovern após a rejeição ao Type 00 marca o fracasso da reestilização elétrica da Jaguar e revela a crise interna agravada pela troca de comando na JLR.
A saída de McGovern após a rejeição ao Type 00 marca o fracasso da reestilização elétrica da Jaguar e revela a crise interna agravada pela troca de comando na JLR.

McGovern ficou 21 anos dentro da JLR, tempo suficiente para virar quase uma instituição. Foi ele quem lapidou o Range Rover até virar objeto de desejo global, reinventou o Defender sem transformar o carro em caricatura e pariu o Evoque, o SUV que virou ícone pop. Mas o nome dele passou a carregar outro peso quando surgiu o Type 00, aquele elétrico excêntrico que parecia desafiar o senso comum, a aerodinâmica e até a paciência dos fãs. Para McGovern, aquilo era arte. Para o público, parecia que a Jaguar tinha enlouquecido.

E é aí que a história fica interessante. Não é só sobre design, é sobre ego, risco e timing. A chegada do novo CEO, P. B. Balaji, já tinha mexido na hierarquia, e o clima interno estava longe de ser tranquilo. O reposicionamento radical da Jaguar gerou críticas suficientes para virar um estudo de caso sobre como transformar uma marca pode sair pela culatra. A demissão repentina de McGovern soa menos como coincidência e mais como um empurrão silencioso para fora da sala.

A Jaguar lançou o Type 00, conceito que deveria representar o futuro da marca, mas gerou críticas e memes. O design polarizador expõe uma crise de identidade e desconexão com suas raízes.
A Jaguar lançou o Type 00, conceito que deveria representar o futuro da marca, mas gerou críticas e memes. O design polarizador expõe uma crise de identidade e desconexão com suas raízes.

Pior ainda, ele não saiu sozinho. Seu braço direito, Massimo Frascella, já havia abandonado o time antes para comandar o design da Audi. É como se o coração criativo da JLR tivesse começado a vazar aos poucos, deixando a Jaguar pronta para um salto arriscado, mas sem quem desenhe o trampolim. A marca está prestes a lançar a fase mais cara e ousada de sua história, e agora precisa decidir quem terá coragem — e habilidade — para carregar essa revolução nas costas.

A verdade é que a Jaguar vive uma crise de identidade que nem o design mais sofisticado consegue esconder. A promessa de virar uma marca elétrica premium parecia um golpe de mestre, mas veio acompanhada de insegurança, polarização e um público que não entende se deve admirar ou torcer o nariz para esse “novo luxo artístico”. O Type 00 virou símbolo perfeito disso tudo, e McGovern, cansado de explicar o inegociável, parece ter decidido que era melhor sair de cena do que continuar defendendo um movimento tão mal recebido.

O Jaguar Type 00 fez sua estreia nas ruas de Paris durante a Paris Fashion Week. O conceito elétrico chamou atenção pelo design minimalista e a presença do ator Barry Keoghan no evento.
O Jaguar Type 00 fez sua estreia nas ruas de Paris durante a Paris Fashion Week. O conceito elétrico chamou atenção pelo design minimalista e a presença do ator Barry Keoghan no evento.

Agora, tudo fica nas mãos da JLR. Sem seu figura mais premiada, sem o visionário que tentava convencer o mundo de que um elétrico pode ser mais escultura do que carro, a Jaguar precisa provar que essa reinvenção não depende de um único nome. E que, com ou sem McGovern, o futuro dela não vai ser só um capítulo estranho dentro de uma história que já foi muito mais elegante.

Relembre o caso

A história da reestilização da Jaguar começou como uma daquelas promessas grandiosas que soam melhor numa apresentação interna do que na vida real. A marca queria rasgar o passado, abandonar qualquer vestígio de nostalgia e se reinventar como um luxo elétrico futurista. Gerry McGovern, com todo seu peso dentro da JLR, virou o porta-voz dessa revolução estética. Ele acreditava que a Jaguar precisava deixar de ser confortável para virar provocadora, um movimento quase artístico num setor que raramente perdoa ousadia.

O problema é que o público não entrou no delírio coletivo. A tal reestilização, que prometia uma identidade nova, acabou batendo de frente com consumidores que ainda não estavam prontos para ver a Jaguar sem seus símbolos mais básicos. O Type 00 virou o símbolo perfeito desse choque. Minimalista ao extremo, brutalista de propósito, sem o felino no capô. Para McGovern, isso era libertação. Para muita gente, era só a Jaguar se afastando sem rumo da própria alma.

O fracasso não veio só nas redes sociais, mas no próprio clima interno, como conta a QuatroRodas. Enquanto o mercado rejeitava a nova estética, a liderança da JLR mudava de tom. A troca de CEO trouxe uma visão mais dura, mais financeira, menos tolerante ao risco criativo. A pergunta passou a ser menos “quem queremos ser?” e mais “quanto isso está custando?”. De repente, a revolução estética de McGovern parecia mais um problema do que um plano, e o designer que antes ditava o ritmo começou a receber olhares atravessados.

No fim, a saída de McGovern não foi uma surpresa, só a etapa final de uma história que começou com ambição demais e aderência de menos. O designer que tentou empurrar a Jaguar para o futuro acabou empurrado para fora quando a visão dele não encontrou terreno fértil. O que era para ser uma reviravolta virou um lembrete de que mudar uma marca não é só sobre design, é sobre fazer as pessoas acreditarem na mudança. E ninguém comprou essa ideia.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.