Não é só lucro da montadora: A verdade oculta sobre o preço dos carros no Brasil

A discussão exposta por Sergio Habib, no episódio 292 do Market Makers, ajuda a explicar por que o país parece preso a um modelo fiscal difícil de escapar.
Publicado por em Mercado Automotivo e Negócios dia

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O Brasil cobra de você como se fosse um país rico, mas devolve como se ainda estivesse tentando chegar lá. Essa diferença não aparece em planilhas nem em discursos oficiais. Ela aparece quando o carro custa mais do que parece razoável, quando o financiamento pesa mais do que o salário permite e quando a sensação é de que tudo funciona sempre no limite.

Essa lógica, detalhada por Sergio Habib, ajuda a entender por que o custo de viver e se deslocar no Brasil não parece apenas alto, mas desproporcional. E o desconforto começa muito antes de qualquer discussão sobre carro, imposto ou crédito.

Por que o Estado custa tanto antes mesmo de falhar

O ponto de partida é menos visível do que parece. O gasto público brasileiro gira em torno de nível de gasto público comparável ao de economias desenvolvidas, cerca de 36% do PIB. Em números frios, isso aproxima o país de nações ricas. Na prática, a experiência cotidiana é outra.

A comparação se impõe sozinha. Países emergentes operam com estruturas mais enxutas. O Brasil escolheu um Estado grande, caro e difícil de reduzir. Até aqui, o problema parece ser apenas ineficiência. Mas essa é só a superfície.

Quando a dívida transforma qualquer escolha em risco

A conta muda quando o gasto encontra a dívida. O Brasil deve algo entre 85% e 90% do PIB, um patamar comum em países ricos. A diferença aparece no preço dessa dívida.

Enquanto economias centrais convivem com juros baixos e previsíveis, o Brasil paga caro para se financiar. Qualquer movimento para aliviar juros provoca pressão imediata no câmbio. O efeito é rápido e conhecido. O dinheiro sai, a moeda enfraquece e o custo volta ainda maior depois.

Até aqui, parece um problema macroeconômico distante. É aqui que ele começa a descer para o dia a dia.

Por que cortar gasto nunca é a opção escolhida

Reduzir despesa em uma democracia é sempre uma decisão impopular. Benefícios têm nome, políticas têm donos e estruturas criam dependência. Deputados sabem exatamente onde cada voto mora.

O ajuste, quando acontece, raramente passa por cortes profundos. Ele escorre para onde há menos resistência. Esse desvio explica muito do que vem a seguir.

O motivo real de o imposto pesar onde dói mais

O Brasil tributa pouco a renda, especialmente nas faixas mais altas. A alíquota máxima do imposto de renda fica bem abaixo da praticada em países desenvolvidos. Não é falta de diagnóstico, é cálculo político.

Sem espaço para avançar sobre renda, o sistema empurra a arrecadação para o consumo. Esse movimento não acontece de forma abstrata. Ele escolhe alvos previsíveis, organizados e fáceis de fiscalizar.

Como o carro vira o ponto de captura perfeita

Poucos setores concentram tantas características desejadas pelo fisco quanto o automotivo. São poucas empresas, cadeias estruturadas e controle centralizado. A arrecadação é eficiente e imediata.

O efeito aparece no preço final. Segundo Habib, sem impostos, o carro vendido no Brasil estaria entre os mais baratos do mundo. O que distorce essa percepção é a carga tributária acumulada ao longo de toda a cadeia produtiva.

A reforma tributária não resolve essa tensão. O IVA elevado exige compensações para manter receita. Daí surge a discussão sobre imposto seletivo adicional para veículos. Até aqui, parece apenas mais um debate técnico. Mas ele se conecta a outro problema menos visível.

Onde a justiça entra e muda o custo do crédito

No Brasil, dever não gera consequência rápida. Processos são longos, a execução é lenta e a recuperação de bens leva tempo demais. Esse ambiente não afeta apenas quem deve.

No financiamento de veículos, o banco sabe que recuperar um carro pode levar anos. Nesse intervalo, o bem perde valor, acumula multas e chega deteriorado. O risco não some. Ele é repassado.

Por que quem paga em dia sempre paga mais

O Brasil gasta cerca de 36% do PIB para funcionar, nível de país rico. Mas o retorno não aparece no dia a dia. A diferença surge no custo de viver, financiar e manter um carro.
O Brasil gasta cerca de 36% do PIB para funcionar, nível de país rico. Mas o retorno não aparece no dia a dia. A diferença surge no custo de viver, financiar e manter um carro.

Esse risco vira taxa. Quem honra o financiamento paga pelos atrasos de quem não paga. Cria-se um subsídio invisível embutido no custo do crédito.

O mesmo mecanismo aparece no cartão de crédito. Grandes descontos para inadimplentes não são exceção, são estratégia. O banco aceita perder parte para garantir algum retorno. O custo volta na forma de juros elevados para quem mantém tudo em dia.

Até aqui, a sensação é de um sistema distorcido. Mas a virada acontece quando isso se conecta ao uso real do carro.

Quando o problema deixa de ser preço e vira decisão diária

O carro mais caro não pesa só na compra. Ele pesa na prestação, no seguro, no financiamento e na decisão de trocar ou manter. O crédito caro empurra prazos longos. Prazos longos prendem o consumidor a escolhas antigas.

Nesse ponto, a discussão deixa de ser sobre política econômica e vira rotina. Manter o carro por mais tempo, adiar a troca, aceitar juros maiores ou reduzir o padrão de compra. Nenhuma dessas decisões acontece no vácuo.

O sistema não obriga ninguém a comprar um carro específico. Ele condiciona o caminho até essa escolha. E é aí que a armadilha se fecha.

O Brasil continua gastando como país rico, funcionando como país pobre e cobrando como se a diferença fosse invisível. A questão que fica não é se o modelo é justo ou eficiente. É como ele aparece quando você decide financiar, trocar ou simplesmente manter o carro que usa todos os dias.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.