A humanidade está vivendo o maior risco de sua existência desde que se organizou como civilização, segundo o climatologista Carlos Nobre. Com mais de quatro décadas dedicadas ao estudo da Amazônia e das mudanças climáticas, o cientista vê a atual crise como a mais grave desde o último período interglacial, há mais de 120 mil anos. A diferença, agora, é que o fenômeno não é natural: é consequência direta da ação humana no planeta.
Nobre afirma que o planeta já ultrapassou o limite de 1,5°C de aquecimento em relação à era pré-industrial, e que isso nos aproxima perigosamente de um ponto de não retorno. Com emissões de gases estufa ainda elevadas e metas modestas para a próxima década, o mundo pode facilmente ultrapassar os 2 °C até 2050. O resultado seria um cenário dominado por ondas de calor intensas, secas, enchentes e incêndios incontroláveis — com destaque para os impactos já visíveis na Amazônia.
O cientista relata que a estação seca na floresta amazônica se estendeu em mais de um mês nos últimos 40 anos. Se a tendência persistir, em até 30 anos, a região poderá viver seis meses consecutivos de estiagem, o que tornaria inviável a manutenção do ecossistema florestal. O papel da Amazônia como sumidouro de carbono, que antes removia 1,5 bilhão de toneladas por ano, hoje está reduzido a menos de 300 milhões.
As queimadas também se intensificaram. Dados recentes do Inpe mostram que mais de 85% dos incêndios são provocados por ação humana. Apesar da queda expressiva no desmatamento nos últimos dois anos, o fogo passou a ser ferramenta do crime organizado para ocupar terras. Essa degradação contínua ameaça transformar a floresta em uma savana empobrecida, agravando ainda mais os efeitos do aquecimento global.
A proposta de Carlos Nobre para reverter esse cenário é clara: o Brasil precisa investir em uma nova bioeconomia baseada na sociobiodiversidade. O país abriga cerca de 20% das espécies conhecidas do planeta, mas menos de 0,5% de seu PIB vem dessa riqueza. Restaurar ecossistemas como a Amazônia e o Cerrado pode ser mais lucrativo do que manter áreas para soja e gado, especialmente com o avanço do mercado de carbono.
Um exemplo é o Arco da Restauração, lançado pelo governo brasileiro na COP28, que prevê a recuperação de 240 mil km² da Amazônia. O plano inclui apoio financeiro a populações indígenas e tradicionais, além de linhas de crédito com juros simbólicos para iniciativas privadas. Nobre reforça que preservar não basta: é preciso restaurar em larga escala para evitar o colapso.
No entanto, o caminho ainda é bloqueado por resistência política e econômica. O agronegócio, aponta Nobre, é o setor mais resistente à mudança, tanto no Brasil quanto no exterior. Segundo ele, há uma recusa em admitir que a própria produtividade agrícola está em risco. Se os pontos de não retorno forem ultrapassados, o Cerrado pode virar Caatinga e boa parte da Caatinga pode se tornar um semideserto. O Brasil perderia sua posição de potência agroambiental.
A próxima Conferência do Clima, a COP30 em Belém, pode ser decisiva. Nobre elogia a proposta de Lula de antecipar a meta de emissões líquidas zero para 2040 e destaca a importância do Brasil, China e Índia na liderança desse processo. Para ele, só uma resposta coordenada, ambiciosa e global poderá evitar um futuro em que cidades como o Rio de Janeiro se tornem inabitáveis por quase metade do ano.
Fonte: Oglobo, USP e Acidadeon.