Carlos Nobre, climatologista e pesquisador da USP, alerta para risco inédito de colapso climático e aponta saída pela bioeconomia

Com aquecimento global já além de 1,5 °C, Carlos Nobre aponta risco sem precedentes à Amazônia e propõe bioeconomia como única via de sobrevivência climática para o Brasil.
Publicado por em Sustentabilidade dia

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A humanidade está vivendo o maior risco de sua existência desde que se organizou como civilização, segundo o climatologista Carlos Nobre. Com mais de quatro décadas dedicadas ao estudo da Amazônia e das mudanças climáticas, o cientista vê a atual crise como a mais grave desde o último período interglacial, há mais de 120 mil anos. A diferença, agora, é que o fenômeno não é natural: é consequência direta da ação humana no planeta.

Pontos Principais:

  • Temperatura global já ultrapassou 1,5 °C e ameaça passar de 2 °C até 2050.
  • Amazônia está perto de se tornar savana por aumento da estação seca e queimadas.
  • Brasil tem oportunidade única com bioeconomia baseada na sociobiodiversidade.
  • Restauração florestal pode ser mais rentável que soja ou gado via mercado de carbono.
  • Resistência do agronegócio e lentidão global dificultam ações contra o colapso.

Nobre afirma que o planeta já ultrapassou o limite de 1,5°C de aquecimento em relação à era pré-industrial, e que isso nos aproxima perigosamente de um ponto de não retorno. Com emissões de gases estufa ainda elevadas e metas modestas para a próxima década, o mundo pode facilmente ultrapassar os 2 °C até 2050. O resultado seria um cenário dominado por ondas de calor intensas, secas, enchentes e incêndios incontroláveis — com destaque para os impactos já visíveis na Amazônia.

Carlos Nobre alerta que a estação seca amazônica já se estendeu em cinco semanas. Se seguir assim, a floresta pode colapsar em até três décadas.
Carlos Nobre alerta que a estação seca amazônica já se estendeu em cinco semanas. Se seguir assim, a floresta pode colapsar em até três décadas.

O cientista relata que a estação seca na floresta amazônica se estendeu em mais de um mês nos últimos 40 anos. Se a tendência persistir, em até 30 anos, a região poderá viver seis meses consecutivos de estiagem, o que tornaria inviável a manutenção do ecossistema florestal. O papel da Amazônia como sumidouro de carbono, que antes removia 1,5 bilhão de toneladas por ano, hoje está reduzido a menos de 300 milhões.

As queimadas também se intensificaram. Dados recentes do Inpe mostram que mais de 85% dos incêndios são provocados por ação humana. Apesar da queda expressiva no desmatamento nos últimos dois anos, o fogo passou a ser ferramenta do crime organizado para ocupar terras. Essa degradação contínua ameaça transformar a floresta em uma savana empobrecida, agravando ainda mais os efeitos do aquecimento global.

A proposta de Carlos Nobre para reverter esse cenário é clara: o Brasil precisa investir em uma nova bioeconomia baseada na sociobiodiversidade. O país abriga cerca de 20% das espécies conhecidas do planeta, mas menos de 0,5% de seu PIB vem dessa riqueza. Restaurar ecossistemas como a Amazônia e o Cerrado pode ser mais lucrativo do que manter áreas para soja e gado, especialmente com o avanço do mercado de carbono.

Um exemplo é o Arco da Restauração, lançado pelo governo brasileiro na COP28, que prevê a recuperação de 240 mil km² da Amazônia. O plano inclui apoio financeiro a populações indígenas e tradicionais, além de linhas de crédito com juros simbólicos para iniciativas privadas. Nobre reforça que preservar não basta: é preciso restaurar em larga escala para evitar o colapso.

No entanto, o caminho ainda é bloqueado por resistência política e econômica. O agronegócio, aponta Nobre, é o setor mais resistente à mudança, tanto no Brasil quanto no exterior. Segundo ele, há uma recusa em admitir que a própria produtividade agrícola está em risco. Se os pontos de não retorno forem ultrapassados, o Cerrado pode virar Caatinga e boa parte da Caatinga pode se tornar um semideserto. O Brasil perderia sua posição de potência agroambiental.

A próxima Conferência do Clima, a COP30 em Belém, pode ser decisiva. Nobre elogia a proposta de Lula de antecipar a meta de emissões líquidas zero para 2040 e destaca a importância do Brasil, China e Índia na liderança desse processo. Para ele, só uma resposta coordenada, ambiciosa e global poderá evitar um futuro em que cidades como o Rio de Janeiro se tornem inabitáveis por quase metade do ano.

Fonte: Oglobo, USP e Acidadeon.

Alan Corrêa
Alan Corrêa
Jornalista automotivo (MTB: 0075964/SP) e analista de mercado. Especialista em traduzir a engenharia de lançamentos e monitorar a desvalorização de usados. No Carro.Blog.br, assina testes técnicos e guias de compra com foco em durabilidade e custo-benefício.